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29 de Dezembro de 2017 as 20:30

Mulheres dão adeus a alisamento e chapinha e assumem cachos

Fios de cabelos cacheados e crespos viram tendência entre as garotas que buscam valorizar autoestima

Maria Luana de 16 anos, confessa que está se acostumando com volume dos cachos (Foto: Acervo pessoal)

Após anos de reinado absoluto da chapinha e do alisamento, os cachos voltaram a ser tendência. Assumir os fios cacheados e crespos tem sido uma opção entre as mulheres, que cada vez mais buscam a valorização da autoestima feminina e discutem a importância de quebrar antigos estereótipos de beleza. Usar o cabelo cacheado e/ou crespo tem feito a cabeça do público feminino.

E a tendência tem conquistado as mulheres alagoanas. A estudante Erika Vasconcelos, de 19 anos, assumiu os cachos aos 14 anos de idade e diz que durante muito tempo as mulheres sentiam mais atraentes e bonitas com alisamento.

“Eu nunca fiz alisamento definitivo. A mãe nunca deixou, ela temia que eu me arrependesse. Assumi meus cachos aos 14 anos. Porém, durante anos usei a franja lisa e o restante do cabelo cacheado com muito creme ou chapado. Hoje, às mulheres se sentem livres para usarem seu cabelo em sua forma natural. Assumir a textura, seja ondulada, cacheada ou crespa, com volume ou não, não é fácil. Na rua, as pessoas te olham como se você fosse de outro planeta. Umas por admirar e achar lindo, outras por achar espanto. Mas o que importa verdadeiramente é se olhar e se achar linda”, diz a estudante.

A estudante diz que antes as mulheres que usavam os cabelos ao natural eram hostilizadas e tinha muito preconceito. “Existiam várias ofensas e que são usadas até hoje, como: cabelo de Bombril, cabelo de vassoura, ruim, ‘se colocar gás, toca fogo’. Isso era muito forte antes. É muito importante trabalhar autoestima, se sentir linda da sua forma natural para poder ser imune a essas ofensas. Durante anos sofri por medo do que as pessoas achariam se eu assumisse meus cachos, mas hoje vejo que o mais importante é a minha autoestima”, diz a estudante que criou um canal no YouTube sobre cabelos cacheados

CANAL

“A ideia do canal surgiu quando algumas meninas começaram a ter curiosidade sobre como eu cuidava do meu cabelo. Aí eu tive a ideia de fazer vídeos ensinando técnicas, penteados, receitas para cuidar dos cachos, além de vídeos sobre autoestima que são importantíssimos. Hoje, tenho mais de 30 mil inscritos e as pessoas amam as dicas. Isso me deixa super grata e feliz”, comenta.

A estudante Kaline Barros, de 23 anos, assumiu os cachos recentemente. De acordo com ela, o cabelo estava muito fragilizado. “Resolvi assumir o natural em abril deste ano, porque meu cabelo estava muito fragilizado por conta dos processos químicos. Estava caindo muito. Então, resolvi deixar de lado a química e cuidar mais do cabelo e assim assumindo os cachos. Usei química por 12 anos. Agora, vou aderir os cachos de vez”, diz a estudante.

Kaliane Barros assumiu os cachos ainda este ano, após 12 anos fazendo uso de química para manter os cabelos alisados (Foto: Arquivo pessoal)

Já a estudante de 16 anos, Maria Luana, amiga e uma das seguidoras de Erika, conta que nunca usou química no cabelo. Ela diz que desde criança as madeixas eram onduladas, mas que no passar dos anos elas foram ficando mais cacheadas. A adolescente confessa que ainda está se adaptando ao volume.

“Meus cabelos eram um liso ondulado. Ele começou a cachear com o tempo. Eu não curtia muito por isso, sempre usava preso ou com muito creme para ficar com o aspecto de molhado. Mas, comecei a seguir as dicas da Erika e de outras cacheadas em redes sociais e confesso que estou me adaptando com o volume. Sentia um pouco de vergonha, parece que as pessoas ficam te olhando estranho. Hoje, uso ele ao natural. Tenho cuidado na lavagem, uso produtos de qualidade, faço hidratações periódicas e estou aprendendo a fazer algum tipo de finalização nos meus cachos”, conta a adolescente.

 

“Processo é muito difícil”, diz coordenadora financeira
 

A coordenadora financeira, Maria Isabel de Souza Almeida, usou o cabelo liso por muito tempo e agora passa pelo processo de transição capilar.

“Usei alisamento por tempo que não tenho memória dos meus cachos. Não sei qual a curvatura do meu cabelo. O processo de transição é bem árduo, é uma mistura de textura. Se a pessoa não tiver uma autoestima segura desisti. Resolvi de um dia para noite e me embasei para chegar até aqui. Quem está nesse processo precisava de segurança, da família e esposo. Porque tem dia que nos sentiremos feia, mas, se alguém está ao nosso lado acalmando, dizendo que os cachos estão aparecendo, a gente consegue”, explica Isabel.

Isabel diz ainda que procurou vídeos e produtos para ajudar nesse processo.

“Iniciei o processo de transição há seis meses, mantive a textura e fui cortando aos poucos. Já fiz dois cortes. Ainda tem textura do aspecto liso, mas é quase imperceptível. É um processo complicado, mas tenho orgulho. É possível. Eu saio feliz com meu cabelo. Tenho muito cuidado para manter meus cachos. Seguir as dicas de especialistas de pessoas que fizeram esse processo é muito importante”, ressalta a coordenadora financeira.

Outra que está no início do processo é a pedagoga Maria Luciléia França, que resolveu assumir o cabelo crespo recentemente, há pouco mais de um mês.

“Usei o cabelo com muita química por anos, mas ele estava muito estragado e no último alisamento começou a cair. Então, antes que perdesse o cabelo de vez, vou assumir ao natural. Aí começaram as críticas de parentes e amigos, porque no início fica meio ressecado, mas irei até o fim. Nesse primeiro momento não vou fazer o big chop (grande corte) vou usar com as duas texturas, amarrando, dando chapinha, usando bigodinhos e quando tiver maior começo a fazer os cortes. Estou fazendo hidratação e seguindo algumas dicas”, explica.

“O segredo é ter paciência”, destaca especialista
 

Assumir o cabelo natural não é só uma tendência estética, mas algo que dá resultados à saúde da mulher e de seus cabelos. Cacheadas, encaracoladas e crespas, no entanto, precisam passar por um período para que toda a química usada em relaxamentos ou outros tipos de alisamento saiam por inteiro dos fios.  A cabeleireira especialista em cabelos ondulados, cacheados e crespos, Alana Frazão, diz que o segredo é ter paciência.

“Cada cabelo tem seu desenvolvimento. Têm mulheres que passam de um a três anos com o cabelo em transição. Existem várias dicas que são eficazes nesse processo. Muitas optam ao corte radical, o big chop, outras utilizam os bigodinhos. Enfim, o segredo para os cabelos cacheados é o cuidado”, explica a especialista.

Alana ressalta que é importante fazer um cronograma capilar seguindo para manter o cabelo em aspecto bonito: hidratar, nutrir e reconstruir.

“O processo de transição é muito complicado para algumas mulheres porque no início a raiz vai ficar ressecada com um aspecto feio, mas, com muita paciência e os cuidados como a hidratação, essa fase é superada. As cacheadas e crespas devem fazer a fitagem [definição dos cachos passando o creme por toda a parte], texturização”, orienta Alana.

Outras dicas que a especialista dá são para as que sentem vergonha durante a fase da transição: usar turbantes, penteados especiais como o afro black, lenços e outros. “Eu também usava o cabelo com alisamento. Desde os seis anos de idade passei por vários processos químicos. Meu cabelo ficou quebradiço. Tive que usar faixas e tranças para disfarçar até ele nascer naturalmente. E há seis anos ele está totalmente ao natural. Hoje, é motivo de orgulho, estilo e aceitação. O segredo é hidratar e cuidar dos cachos. Com o tempo vira hábito”, comenta.

MODA

Apesar da crise econômica no país, cresce o número de consumidores brasileiros em busca de produtos que valorizem os cabelos naturais, como cacheados e crespos. Conforme dados da empresa de pesquisa Euromonitor, os produtos para alisamento e relaxamento cairão de R$ 1 bilhão para R$ 628 milhões em 2020 na América Latina. Mas as vendas de produto para tratamento de cabelos devem saltar 21,2%, passando de R$ 19,4 bilhões para R$ 23,58 bilhões.

 

“Valorizar a autoestima da mulher é essencial”
 

Para ajudar na autoestima da mulher existe em Maceió o movimento Encrespa Geral Maceió – instituto que celebra a valorização do uso de cabelos naturais sejam eles crespos, cacheados e ondulados. O grupo se reúne para dá dicas, palestras e outras atividades referentes à temática.

SURGIMENTO

“O Encrespa surgiu em São Paulo, através de Eliane Serafim. Começou como um encontro de mulheres, homens e crianças cacheadas e crespas na mesma época dos protestos sobre o aumento do preço das passagens de ônibus, que tinham como lema ‘Não é apenas por 20 centavos’. Com esse mote, fizemos o nosso: ‘Não é apenas por cabelo’. Desde então, mais de 27 cidades aderiram ao Encrespa Geral, entre Brasil, Itália, Estados Unidos, Inglaterra, Dublin e até Japão, onde já teve o encontrão que busca discutir sobre a liberdade de sermos quem somos, sem mascarar nosso cabelo, traço de nossa identidade miscigenada brasileira, e de combate aos preconceitos”, conta Tamires Melo, organizadora do Encrespa Maceió.

Tamires Melo diz que a ideia é passar a pluralidade cultural. “Em nossa programação temos música, dança, oficinas de turbante, maquiagem para pele negra, e tem o Encrespa Kids, totalmente voltado para as crianças negras se aceitarem e terem maior autoestima. Fizemos quatro edições na capital e estamos nos preparando para a quinta edição, em março de 2018”, comenta a organizadora.

ANAJÔ

A vice-presidente do Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô, Valdice Gomes, diz que a sociedade negou a valorização da herança africana.

“Não se trata de ter vergonha em usar o cabelo ao natural. A sociedade brasileira, infelizmente, sempre negou a valorização da população negra, e o que possa lembrar a herança africana no Brasil. Preferindo supervalorizar e adotar como padrão de beleza tudo que remete à Europa, pessoas brancas, cabelos lisos, de preferência louros e olhos claros. E isso era determinante principalmente nas oportunidades de emprego. Quem não estava nesse padrão era excluído do mercado de trabalho. É evidente que para ser aceito ou aceita nesses espaços, as mulheres negras, principalmente, se submetiam ao alisamento dos cabelos”, ressalta.

Valdice acredita que a mudança de comportamento se deva a alguns fatores, como, por exemplo, resultado de anos de luta do movimento negro para que essa população tenha autoestima elevada e orgulho da sua negritude.

“Principalmente divulgando os feitos positivos de personalidades negras. Além disso, o cabelo faz parte do empoderamento da mulher negra em assumir a sua negritude e reconhecer a sua ancestralidade africana. Ou seja, é uma questão de empoderamento, de condição de mulheres independentes que querem ser reconhecidas pela sua competência e qualificação profissional”, expôs.

Pedagoga Luciléia França está no processo de transição; ela diz que no início recebeu críticas de parentes e amigos: “Mas eu vou até o fim” (Foto: Arquivo pessoal)