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16 de Abril de 2018 as 14:30

Escavação encontra urna funerária indígena de mil anos na Serra da Barriga

Objeto foi encontrado por arqueólogos em local onde está sendo feita estrada de acesso; pesquisas continuam

Ao lado de toda a trajetória do Quilombo dos Palmares e da resistência do povo negro, a Serra da Barriga, no município alagoano de União dos Palmares, continua surpreendendo. E rendendo história. Uma história que agora brota do chão: essa semana, uma equipe de pesquisa encontrou por lá uma urna funerária indígena de aproximadamente mil anos de idade.

"É um vasilhame de cerâmica que alguns grupos indígenas utilizavam para enterrar seus mortos, onde realizavam os rituais deles, ou colocando o corpo primariamente na urna ou fazendo algum tratamento antes, com um aterramento secundário", explica o arqueólogo Scott Joseph Allen, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e responsável por comandar os estudos no local.

Além da entidade pernambucana, os trabalhos contam também com a participação do Núcleo de Ensino e Pesquisa Arqueológica da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ligado ao Museu de História Natural e ao Centro de Arqueologia Palmarina, instalado em União ainda em 2009. Uma empresa especializada na área auxilia ainda a logística das escavações na serra.

Colaborador da Ufal, Scott ressalta que a equipe possui profissionais de Arqueologia em diversos níveis - incluindo graduados, mestrados e doutorandos. Há tempos a trupe vem desvendando os mistérios enterrados por ali e cerca de dez urnas funerárias do mesmo tipo já foram encontradas no lar de Zumbi dos Palmares. O americano aponta que os achados são comuns no Brasil. 

"Essas urnas não são incomuns e também várias outras culturas enterravam em urnas diferentes, com formas diferentes. Os Tupinambás, por exemplo, usavam urnas mais decoradas. Essas são mais simples, porém, muito bem feitas. Temos delas no Brasil inteiro, mas a datação varia bastante. Em Alagoas, pelos estudos que conheço, já foram encontradas datações de dois mil anos até 700 anos atrás". 

Na Serra da Barriga as pesquisas se iniciaram em 1996 e, desde então, cientistas vêm trabalhando tanto em laboratório quanto em campo para conhecer um pouco mais a história do quilombo e da região em si. As novas escavações, porém, foram motivadas pelas obras de implantação e pavimentação dos 7,5 quilômetros de acesso ao parque memorial, iniciadas este mês.

"A Serra foi transformada em Patrimônio Cultural do Mercosul e isso exige algumas adaptações em termo de estrutura. É uma exigência do próprio Mercosul para que o título seja mantido. O projeto que foi apresentado na época da candidatura da Serra da Barriga também previa isso", aponta Thiago Cantarilis, do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-brasileiro da Fundação Palmares, de Brasília.

Ele acrescenta que as escavações são exigências do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "Como está acontecendo essa obra no parque memorial, é necessário que se faça uma pesquisa arqueológica. Essa é uma das exigências do Iphan no processo de licenciamento e que acontece também em outros lugares. Se fosse no Centro de Maceió, por exemplo, essa pesquisa teria que ser feita também".
O professor Scott conta que já esperava novas descobertas por lá. "Quando chegamos falei para as pessoas que vão fazer a estrada e também para a equipe que encontraríamos algo e achamos essa urna funerária da tradição arqueológica Aratu", ressalta o pesquisador, referindo-se ao termo usado para um grupo pré-histórico de horticultores falantes das línguas do tronco Macro-vê.

Segundo ele, os achados demonstram que a aldeia que ocupava a Serra da Barriga antigamente vivia a céu aberto, em grandes ocas e com a presença de praças centrais. "Nos entre espaços, entre as ocas e as praças, encontramos as urnas. A literatura arqueológica brasileira está cheia desse tipo de padrão de assentamento e mortuário", explica ele, acrescentando que indivíduos importantes eram enterrados dentro das ocas.

Os estudos continuam até meados de junho com o que o arqueólogo classifica de "caráter de resgate". "Precisamos investigar para não perder nada e vamos precisar escavar ainda outras duas áreas em que achamos pisos de habitação, que é basicamente o piso de uma ou duas velhas ocas indígenas de aproximadamente 900 anos. Estamos com uma oportunidade imensa de nos aprofundarmos sobre esse sítio arqueológico".