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29 de Jun de 2020 as 08:00

Caderneta agroecológica empodera mulheres da agricultura em Alagoas

Agricultoras familiares de pelo menos quatro municípios de Alagoas foram beneficiadas a partir da utilização de Cadernetas Agroecológicas, um instrumento político-pedagógico, que tem elevado à autoestima delas e gerado reconhecimento dentro e fora de casa. Este é um dos projetos apoiados pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) com a interligação do Programa Semear Internacional.

A ideia é bem simples, e tem gerado resultados surpreendentes no estado e no restante do país. Com uma caderneta de quatro colunas as mulheres brasileiras que trabalham na agricultura familiar, registram o quanto de sua produção é vendida, distribuída, trocada ou consumida.

A caderneta trouxe impactos positivos de longo alcance na vida de centenas de mulheres rurais, mudando a forma como elas e seus parceiros valorizam sua própria produção e até mesmo ajudando-os a se beneficiarem de políticas governamentais destinadas à agricultura familiar.

Para se ter uma ideia do avanço por meio do mecanismo, a coordenadora de Direito das Mulheres da ONG ActionAid no Brasil, Ana Paula Ferreira, ressalta que algumas delas até já passaram a emprestar dinheiro para o marido, após organizar a grana da venda dos produtos por meio das cadernetas.

Caderneta fortalece trabalho e conscientização da contribuição para a economia brasileira (Foto: Lianne Milton)

“Ao ter noção das suas produções, muitas mulheres conseguiram até aumentar a colheita, se dedicaram mais aos quintais e passaram a ser vistas como empreendedoras”, afirmou. “As cadernetas partem de um princípio muito simples, mas capaz de uma grande mudança na vida das pessoas”, observou Ana Paula.

“Muita gente imagina o feminismo como algo teórico. Mas não é. A caderneta agroecológica, por exemplo, é um método de valorizar o trabalho das mulheres, de formação e empoderamento”, emendou.

Ana ressaltou também que o patriarcado se adequa a qualquer lugar, no entanto no meio rural é algo muito forte, que limita até o direito de ir e vir, primeiro pela questão do transporte, e depois porque os homens se colocam no direito de organizar a vida das mulheres, onde elas podem ir. “Ao se afirmarem como geradoras de renda, elas passam a poder negociar em casa o que será feito com o dinheiro”, finalizou.

Contribuição das mulheres não é apenas monetária

“Se antes, elas se consideravam donas de casa porque cuidavam da casa e dos quintais, mesmo que trabalhassem diariamente na lavoura, agora elas reconhecem e tem orgulho de dizer que são trabalhadoras”, explicou.

A pesquisa reforçou que o início da atuação das agricultoras e do trabalho em rede das várias organizações no Brasil por meio das Cadernetas, só foi possível, graças à execução de políticas públicas do Governo Federal, como a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural e as chamadas de ATER Agroecologia.

CAPACITAÇÕES

Cláudia Yoná, – consultora em Desenvolvimento Rural Sustentável no estado de Alagoas, que participou da primeira etapa do intercâmbio em Recife e da segunda em Salvador, e posteriormente multiplicou as informações repassadas para 17 agentes de ATER, – explicou que a capacitação foi de fundamental importância.

“As Cadernetas Agroecológicas são instrumentos utilizados pelas agricultoras para o empoderamento da sua produção”, reforçou. “Fiz o intercâmbio e multipliquei com os agentes de Assistência Técnica e Extensão Rural, agora, temos agricultoras familiares dos municípios alagoanos de Água Branca, Inhapi, Batalha, Jacaré dos Homens, Tanque D’Arca e Arapiraca utilizando o mecanismo a partir da capacitação que fizemos entre 2018 e janeiro de 2020”, salientou.

Na visão de Cláudia Yoná, a inovação se deve graças aos intercâmbios multiplicados pelos agentes de ATER do Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas (Emater/AL), que realizam um trabalho fundamental de acompanhamento do uso das Cadernetas Agroecológicas junto às agricultoras. “Esses agentes de ATER também têm a missão de acompanhar e monitorar esses mecanismos que geram reconhecimento e elevam a autoestima dessas mulheres rurais”, concluiu.

‘Vamos Subir a Serra’

Evento fortalece comercialização de produtos em comunidades quilombolas

Os eventos, estudos e disseminação de boas práticas acontecem no Brasil e em países da América Latina por meio da gerência de Cooperação Sul-Sul. Em Alagoas, um grande evento ocorreu em novembro de 2019, para apoiar ações de inclusão produtiva dos povos e comunidades tradicionais, nos mercados institucionais e privados. O “Vamos Subir a Serra” contou com a realização de um seminário para fortalecer as ações de comercialização dos produtos das comunidades quilombolas, com foco na agregação de valor quanto à origem, para 50 comunidades quilombolas.

Aline Martins, gerente de Gestão do Conhecimento do Programa Semear, explicou que a atuação é realizada exclusivamente para o auxílio no desenvolvimento dos seis projetos apoiados pelo FIDA no Brasil, ficando mais fácil definir o público das atividades e promover a melhor vivência para eles.

“Uma das metas do projeto é consolidar a data comemorativa ao dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, em um calendário de maior relevância nacional, com uma série de atividades específicas e inovadoras elaboradas para dar evidência ao episódio histórico da luta pela liberdade no solo sagrado do Quilombo dos Palmares”, mencionou.

Assim, a Secretaria Nacional de Agricultura Familiar e Cooperativismo, por meio do Departamento de Estruturação Produtiva e Superintendência Federal da Agricultura no estado de Alagoas contou com o apoio do Programa Semear Internacional (PSI) para realizar este importante evento, contribuindo para geração de renda e acesso a informações de políticas públicas aos agricultores familiares tradicionais.

No dia 15 de novembro do mesmo ano foi realizado no evento um seminário sobre políticas públicas para comunidades quilombolas, na oportunidade o PSI compôs a mesa de debates e apresentou as ações voltadas para este público e sobre o trabalho desenvolvido no semiárido juntamente com os projetos apoiados pelo FIDA e apresentou o documentário “Rita Preta” que conta a história da comunidade quilombola do Talhado na Paraíba.

FORTALECIMENTO

Aline Martins reforçou que as atividades em torno da agricultura têm acontecido para fortalecer os sistemas agroecológicos, a auto-organização e autogestão das associações de agricultores e agricultoras familiares.

Segundo ela, entre os principais eixos do trabalho estão: agroecologia, tecnologias sociais, uso e reuso de águas, promoção da equidade de gênero, desenvolvimento rural sustentável, acesso a mercados públicos e privados, comercialização dos produtos, desigualdade entre as mulheres rurais, entre outros.

SEMEAR

Intercâmbios e seminários, além de eventos abertos ao público

Em quase três anos desta versão, o Programa Semear Internacional realizou diversos eventos, intercâmbios, seminários, formações, sistematização de experiências de sucesso e publicações em diversos segmentos, além de produção de materiais de comunicação social como vídeos para levar informação para os beneficiários do programa.

Em Alagoas, o FIDA atua por meio do Projeto Dom Helder Câmara II, um acordo de financiamento com o Governo Federal, tendo como objetivo contribuir para a melhoria sustentável das condições sociais e econômicas das famílias que vivem em condição de pobreza ou extrema pobreza no Semiárido. Atualmente 2.101 famílias são atendidas em 43 municípios, beneficiando 9.700 pessoas. A meta de atendimento do projeto no estado é de 3.768 famílias em 47 municípios.

Em sua segunda fase, o projeto está beneficiando agricultores dos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe (Nordeste), Minas Gerais e Espírito Santo (Sudeste).

Técnicos da Emater apresentaram caderneta às mulheres do campo

Experientes, engenheiros agrônomos e técnicos de agropecuária foram escolhidos para conhecer o programa e serem capacitados para uma importante missão: apresentar as cadernetas agroecológicas às mulheres agricultoras participantes do Projeto Dom Helder Câmara, orientando-as no preenchimento e acompanhando-as no dia a dia da produção de suas lavouras.

Após aceitarem o convite para participar da capacitação sobre a utilidade e a importância das cadernetas agroecológicas para as mulheres que trabalham na agricultura familiar, Taciana Salvador, Gleice Pires, Rosângela Marcolino e Isaquiel Dias partiram rumo ao campo para multiplicar conhecimento, aplicar a caderneta, incentivar o empoderamento feminino e elevar a autoestima das mulheres agricultoras.

O ponto de partida foi à aplicação do questionário com a agricultora, uma espécie de entrevista sobre o produto que cultiva, a área da propriedade, a quantidade de membros da família, e outros pontos inerentes ao questionário. Tudo foi abordado na primeira visita, quando as mulheres também foram apresentadas a caderneta agroecológica e receberam todas as orientações para começar a preenchê-la.

Engenheira agrônoma Taciana Salvador aplica questionário com Dona Aparecida, agricultora beneficiada (Foto: Arquivo Pessoal)

Embora cada profissional acompanhe uma agricultora diferente nessa orientação constante, em municípios distintos de Alagoas, os relatos são semelhantes: todos destacam a importância do preenchimento da caderneta não só para a mulher agricultora, mas também para toda a família, e ainda ressaltam a diferença que uma ferramenta “tão simples” faz na organização financeira familiar.

Na caderneta, a agricultora anota todos os produtos que vende, consome, troca e doa, com suas respectivas quantidades e valores unitários e totais. No final do mês, elas enviam os dados para os técnicos que as acompanha, que por sua vez, fazem a tabulação e a consolidação dos números. O programa tem a previsão de duração de 12 meses, com possibilidade de prorrogação.

“Elas registram tudo na caderneta, mesmo aquilo que é consumido pela família, tudo é calculado como se fosse vendido. Dessa forma, as agricultoras têm a noção do quanto está sendo gasto e do quanto elas têm de lucro”, esclareceram os técnicos entrevistados pela reportagem.

Taciana de Lima Salvador é engenheira agrônoma, com mestrado e doutorado, e acompanha uma agricultora no município de Tanque D’Arca. Para ela, a caderneta mostra para as mulheres a importância que elas têm no sustento e na economia da família.

“Às vezes as mulheres não têm noção da importância delas e não param pra pensar que têm uma participação grande na produção e no cultivo dos produtos agrícolas. A minha agricultora, dona Aparecida por exemplo, já ajudava o esposo e a filha, e agora ela contabiliza tudo como se fosse vender, para saber que tudo tem valor, até mesmo quando é feita uma doação”, explicou.

Agricultora Aparecida se diz feliz em participar do projeto da Caderneta agroecológica (Foto: Arquivo Pessoal)

A engenheira agrônoma destaca que a organização a partir da caderneta ajuda também no planejamento da produção dos alimentos cultivados. “Se no mês dona Aparecida colhe 10 molhos de coentro, por exemplo, com o registro das informações ela pode perceber que se investir mais em irrigação e num canteiro maior, ela vai produzir mais, vender mais e também doar mais”, pontuou Taciana Salvador, acrescentando que a caderneta agroecológica permite essa visão empreendedora que beneficia não só a mulher, mas toda a família.

Gleice Pires, que também é engenheira agrônoma, acompanha a agricultora Jaqueline, no município de Jacaré dos Homens, que trabalha com horticultura. Para Gleice, a caderneta agroecológica é importante para dar visibilidade às mulheres dentro da economia familiar. “A gente observa que a prática de fazer o registro não é comum, as famílias não adotam, mas é importante pra que tenham uma visão de tudo que eles produzem e o que isso representa em dinheiro e lucro no final do mês”, ressaltou. Na opinião da engenheira agrônoma, a caderneta é uma ferramenta importante de gerenciamento da renda familiar. “Agora ela [a agricultora] entende o compromisso de registrar as informações e reconhece que aquilo é o negócio da família”, salientou Gleice.

CAPACITAÇÃO

A engenheira agrônoma Rosângela Marcolino Duarte, que presta assistência técnica a uma agricultora no município de Delmiro Gouveia, contou que a capacitação da cartilha foi extremamente importante porque deu aos profissionais o direcionamento necessário para desempenharem o trabalho com as mulheres agricultoras que iam fazer parte do projeto da caderneta agroecológica.

“Achei a proposta muito boa. É um projeto bastante interessante e uma oportunidade muito boa para a agricultora fazer o acompanhamento da sua produção por meio das anotações e saber no final do mês se está dando lucro ou tendo prejuízo”, relatou Rosângela salientando que os agricultores não têm o hábito de fazer esse tipo de registro.

Rosângela contou ainda que o trabalho é bem interessante e que o foco são as mulheres rurais que já atuam na área da agroecologia. Segundo ela, o projeto foi bem aceito pelas participantes. “As mulheres que contatamos receberam muito bem o projeto, pois era uma oportunidade para elas fazerem o acompanhamento da sua produção e começarem a desenvolver esse hábito. Iniciamos a aplicação da caderneta em outubro de 2019 e hoje, elas são atuantes, anotam tudo e nós fazemos esse acompanhamento junto com essas agricultoras”.

Acompanhamento e orientações, além da caderneta

Isaquiel Dias, mais conhecido como Isaque, é técnico em agropecuária. Ele trabalha na Emater e acompanha duas agricultoras do município de Água Branca, na utilização da caderneta agroecológica. Mas além das orientações quanto ao registro de tudo o que é produzido mensalmente pelas agricultoras e seus familiares, destinado à venda, troca, doação e consumo, Isaque também acompanha e orienta de perto o plantio de cada produto cultivado.

Sempre que necessário ele está por perto e orienta no cultivo dos produtos desde a escolha da semente até a colheita, passando pela forma de irrigação. Antes da pandemia do novo coronavírus se instalar em terras alagoanas e o Governo do Estado decretar o isolamento social, o acompanhamento quinzenal vinha sendo feito de forma presencial, mas agora, com a ajuda da tecnologia, o acompanhamento e as orientações são realizadas por meio de um aplicativo de mensagens onde ele tira as dúvidas e está sempre em contato. Todos os técnicos têm utilizado esse recursos para continuarem acompanhando as agricultoras dando a elas todo o suporte necessário.

Técnico Isaquiel Dias também orienta o dia a dia da plantação que acompanha (Foto: Isaquiel Dias – Arquivo Pessoal)

A pandemia também dificultou a venda dos produtos, o que antes era comercializado nas feiras livres, hoje o foco maior são as vendas porta a porta na vizinhança. Alguns fazem uso do aplicativo de mensagem WhatApp para fechar suas vendas.

Isaque se sente feliz em poder ajudar aos agricultores da região e disse que a sensação é de dever cumprido. “A sensação é a de que estou fazendo a minha parte. A minha missão e fazer com que o outro tenha as orientações e as coloque em prática, e isso já é uma vitória”, declarou.

O técnico em agropecuária contou ainda que já incentivava os agricultores, de uma forma geral, a anotarem todas as informações referentes à colheita, porém, com a caderneta agroecológica criou-se um hábito e um compromisso das mulheres fazerem esse registro, o que ajuda na organização não só das finanças da família, mas também no plantio e na criação dos animais. Tudo é anotado como parte do processo da cadeia produtiva e com isso toda a família é beneficiada.

“Se tudo for anotado corretamente na caderneta, a agricultora pode analisar e programar o que vai plantar, quanto vai plantar, e isso vale também para os animais, uma vez que os agricultores podem observar, por exemplo, que na produção de ovos caipiras está na hora de tirar as galinhas velhas e colocar um lote novo, só com as informações registradas. Isso é muito importante e a caderneta ajuda nessa visão empreendedora, no negócio da família e todo mundo é beneficiado”, enfatizou.

Isaquiel Dias acompanha a Camila Gonzaga, uma produtora que está começando a cultivar os produtos agora, com o foco nas frutas e hortaliças. Outra produtora acompanhada por ele é dona Vilma Andrade, que tem uma propriedade bastante diversificada: plantação de feijão, hortaliças, criação de gado leiteiro para a fabricação de queijos artesanais, criação de galinhas caipiras para a produção ovos, dentre outros.

Segundo o Isaque, com o acompanhamento das cadernetas as mulheres fortes do campo, começaram a perceber que têm potencial para administrar as finanças, bem como a sua importância no negócio familiar.

FORÇA FEMININA

Agricultora comanda a produção de hortaliças e ajuda na renda familiar

Jaqueline comanda a produção agrícola da família (Foto: Arquivo Pessoal – Gleice Pires)

Jaqueline Barros da Silva mora no Povoado Garrote, no município de Jacaré dos Homens e há 10 anos trabalha como agricultora familiar no cultivo de hortaliças. É ela quem comanda toda a produção da sua propriedade. O esposo de Jaqueline trabalha fora e ela se orgulha de comandar o negócio da família e ajudar no sustento da casa.

Com a caderneta agroecológica, Jaqueline contou que tudo ficou mais fácil, que dá pra ter o controle do quanto se ganha no final do mês, já que antes, nada era anotado e por isso, não podia fazer essa análise. Agora, com a organização, as coisas ficaram melhores e impôs uma certa disciplina. A agricultora é acompanhada pela engenheira agrônoma Gleice Pires.

Para a Jaqueline, a caderneta visa mostrar as mulheres que o trabalho delas é importante, o que é muito gratificante. “Sinto-me feliz! Pra muitos a caderneta pode parecer pouco, mas pra mim faz a diferença. Com ela eu sei para onde foi o produto, o que foi vendido e consumido. Agora eu tenho essa noção”, declarou a agricultora acrescentando que com a organização da produção, já dá para complementar a renda mensal da família.

O projeto foi tão bem aceito e tem gerado bons resultados que a agricultora deseja que outras mulheres também sejam beneficiadas e se tornem mais empoderadas. “O projeto das cadernetas agroecológicas é importante, mostra o valor da mulher e o seu papel nesse processo todo. O que é bom para eu mostrar aos meus filhos que o trabalho na roça também é importante e gratificante. Hoje me sinto mais confiante, mais empoderada”, garantiu Jaqueline.

Jovem multiplica conhecimento com outros agricultores

Nascida e criada na roça, Camila Gonzaga Oliveira acumula vasta experiência na agricultura, mas somente há alguns meses, iniciou sua própria plantação de hortaliças e frutas. Antes, ela trabalhava de meeira com um tio e agora ela é dona do seu próprio negócio.

Paralelo ao Projeto da Caderneta Agroecológica, Camila foi contemplada com o programa Sertão Mulher, da Caixa Econômica Federal, que dá todo o suporte as agricultoras que trabalham com agroecologia. Mais uma forma de ajudar e valorizar as mulheres do campo. Para ela, a união dos dois projetos foi muito produtiva e proveitosa pra toda a família.

A caderneta agroecológica chegou na vida da Camila, no mesmo momento que ela iniciava sua primeira plantação e colheita das frutas. Com apenas 26 anos de idade, ela se sente bem mais empoderada, mais dona de si. Hoje, a agricultora já observa que os lucros aumentaram.

“A caderneta tem muita serventia pra mim e tem me ajudado bastante na organização do sítio, principalmente no controle dos gastos, o que a gente não tinha. Antes gastava mais e não via o lucro. Hoje, com tudo anotado, é possível fazermos uma análise de tudo que gastamos e ainda dá pra fazer uma poupança e guardar para reinvestirmos”, relatou Camila.

Camila passou os conhecimentos da caderneta agroecológica ao tio (Foto: Arquivo Pessoal)

O registro mensal na caderneta agroecológica de tudo que se vende, consome, troca ou é doado pela Camila e sua família deu tão certo que o tio dela, que tem mais de 20 anos de experiência na lavoura, gostou da ideia e logo copiou a sobrinha. Claro, coube a Camila repassar os ensinamentos do preenchimento da caderneta.

“Conversei com o meu tio sobre a caderneta e ele gostou da ideia. Ele também não tinha a noção do quanto tirava de dinheiro na feira e no final do mês não sabia quanto tinha apurado. Com a caderneta, ele já consegue fazer essa análise”, explicou Camila, lembrando que o foco das cadernetas são as mulheres agricultoras, mas ela reproduziu a caderneta e multiplicou o conhecimento com o tio. Afinal, conhecimento é bom quando você aprende e também ensina.

Camila fala com amor e orgulho dos produtos que cultiva em seu sítio, das frutas, dos animais. Sempre que ela precisa recorre ao Isaque (Isaquiel Dias), seu mentor no projeto das cadernetas, para tirar dúvidas. “Foi o Isaque que deu a ideia da gente fazer as mudas das frutas para também comercializar, já que precisamos decotar (podar) as fruteiras de tempos em tempos”, pontuou.

Propriedade rural serve de modelo para outros agricultores

A propriedade da família da agricultora Vilma Andrade dos Santos da Silva, no município de Água Branca, é uma Unidade de Demonstração que serve de modelo para outros agricultores da região. O sítio cultiva uma grande variedade de produtos que atrai tanto compradores quanto profissionais do campo que buscam aprimorar seus conhecimentos.

Dona Vilma é a responsável pelas anotações na caderneta agroecológica de tudo o que é produzido mensalmente nas suas terras e o destino de toda a produção: consumo, venda, troca e doação. Antes esse registro não era feito, mas agora ela consegue anotar tudo conforme as orientações do seu tutor, Isaquiel Dias. Quem ajuda a agricultora com os cálculos no final do mês é o filho Valdemir dos Santos da Silva.

“Minha mãe faz as anotações e eu ajudo com os cálculos no final do mês. Agora, com a caderneta temos a noção do que sai e do que entra no final do mês, com o balanço geral da produção. Também podemos planejar melhor as plantações, pois antes ficávamos meio ‘perdidos’. Foi uma mudança fascinante!”, declarou o jovem rapaz que é técnico em agropecuária e estudante de Ciências Biológicas.

Dona Vilma é a responsável por anotar todos os dados da produção mensal das terras da família (Foto: Arquivo Pessoal)

Valdemir contou que o lucro da família também aumentou após a aplicação da caderneta, e que agora toda a produção do sítio é controlada. Além de hortaliças, feijão, frutas eles criam gado de leite para a fabricação de queijos que são produzidos pela dona Vilma, e também criam galinhas de capoeira para a produção e venda de ovos caipiras. Tudo fresquinho e livre de fertilizantes, agrotóxicos ou outro produto químico.

Com o trabalho que a família da Dona Vilma já vinha desenvolvendo e com a ajuda da caderneta que trouxe uma melhor organização administrativa e financeira, a propriedade se tornou ponto de visitação de agricultores da região que querem aprimorar suas técnicas e conhecimentos, e de escolas vizinhas que buscam promover a interação entre os estudantes e a natureza.

“A gente sente orgulho porque não fazemos nosso trabalho para mostrar aos outros, mas e é muito gratificante poder compartilhar nosso dia a dia com os agricultores que estão começando suas plantações e vêm aqui saber como estamos trabalhando na roça e na criação dos animais. Com os alunos da mesma forma, eles vêm aqui para aprender mais sobre a importância do meio ambiente, ter um contato maior com a natureza e isso é muito bom”, contou o jovem informando que, com a pandemia, as visitas foram suspensas.

A família também tem orgulho de colher outros frutos. É que Valdemir cursa o 7º período de Ciências Biológicas numa faculdade particular e tudo é custeado pelos produtos cultivados por eles, principalmente pela produção dos ovos caipiras. Parte da venda dos produtos é destinada aos estudos do jovem amante da natureza.

“Pra toda a minha família é um orgulho muito grande ver um filho se formando numa faculdade particular, custeada com parte do lucro de tudo o que é produzido na nossa propriedade. Isso dá muito orgulho!”, enfatizou Valdemir.