Empresas do Pinheiro vivem drama com fechamento e invasões

Mesmo depois de encerrar as atividades, os proprietários da Padaria Belo Horizonte no Pinheiro continuam sofrendo os efeitos do esvaziamento do bairro com uma rotina de invasões e roubos causando ainda mais prejuízos. Além da violência, a perda drástica de faturamento é outra consequência que tem afetado comércios fora da área de risco, exemplo disso é a Papelaria Paquê que após 26 anos também irá fechar as portas.

Após quatro décadas de funcionamento no bairro do Pinheiro, a padaria Belo Horizonte encerrou as atividades no fim do ano passado. O empresário Dirceu Buarque detalha que no último domingo (27) quatro indivíduos arrombaram o prédio onde funcionava a padaria, roubaram e vandalizaram o local. Esta não é a primeira vez que o prédio é alvo de criminosos.

“A padaria está fechada, mas os meus equipamentos ainda estão lá dentro, porque não houve negociação ainda com a Braskem e em função disso eu vou diariamente na padaria. Na semana passada eu estive lá e vi que tinham arrombado a parte de cima, mas não tinham subtraído quase nada. E fui surpreendido as cinco da manhã no domingo quando um colega me ligou dizendo que um meliante tinha invadido lá a padaria por cima do telhado da casa vizinha que está desocupada. Eu corri para lá pedi reforço a um pessoal da Braskem, a polícia chegou, nós invadimos e conseguimos prender um. Mas esse um era menor de idade. Ao todo eram quatro que estavam lá dentro”, relata.

Dirceu afirma que ainda não conseguiu contabilizar os prejuízos, tamanho o estrago causado. Além de roubar equipamentos, utensílios, fiação elétrica durante toda a madrugada o estabelecimento foi pichado e depredado.

“Eu ainda estou fazendo esse levantamento do que foi subtraído, prestei queixa na delegacia, mas infelizmente a gente estava tão nervoso, tão aterrorizado com o que eles fizeram, com o vandalismo. Eles picharam as paredes. Quebraram, danificaram muitas coisas, os forros, teto. Sabe? O que eles não podiam levar eles estavam quebrando e beberam e fizeram muita bagunça dentro. Imagine, quatro homens dentro dum estabelecimento cheio de coisa, eles fizeram aquele vandalismo todo, arrancaram as tomadas, os fios, que eu estou inclusive sem energia lá, porque eles levaram os fios. O que mais me chocou em tudo isso foi o vandalismo”, desabafa.

Papelaria Paquê anuncia fechar as portas após 26 anos no bairro

Outro comércio tradicional do Pinheiro que também anunciou fechamento – a exemplo da Padaria Belo Horizonte -, é a Papelaria Paquê. Após 26 anos no bairro, o fechamento foi anunciado esta semana pelos proprietários. Além do faturamento de apenas 15% do que era antes do afundamento, o local também tem sido alvo de criminosos.

Um complicador para a questão é o fato de o comércio estar situado fora do mapa de risco, ou seja, não está incluído no mapa de realocação.

Para Dirceu Buarque, da Padaria Belo Horizonte, falta apoio para os comércios da região afetada, principalmente do ponto de vista da segurança. “A segurança que a Braskem se propõe a fazer é uma segurança patrimonial. Eles só olham para os imóveis que foram desocupados e que eles já tomaram posse. É uma segurança do patrimônio que já é deles, eles tão comprando os imóveis. E aí eles vão na própria hora que você desocupa e que o imóvel já é dele, aí tem aquela segurança lá, mas no meu caso, como eu não negociei ainda, eles não prestam assistência dessa forma. Mas eu estou fazendo o levantamento que é justamente pra dar entrada no processo para que a Braskem seja responsável, porque afinal de contas o fechamento da minha empresa com quarenta e dois anos foi única e exclusivamente em função do que aconteceu, culpa da Braskem e aí eles têm que arcar com esse prejuízo”, argumenta.

Em nota, a Braskem afirma que as ações de segurança são de competência do poder público e que o trabalho realizado no local visa dar suporte adicional.

“A Braskem mantém um trabalho de apoio à segurança patrimonial nos trechos desocupados dos bairros, com uma equipe de mais de 300 profissionais que se revezam 24 horas por dia, sistemas de câmeras e alarmes. Vale ressaltar que a segurança pública não é responsabilidade da Braskem e a empresa não tem poder de polícia. As medidas são adicionais e todas as ocorrências devem ser comunicadas às autoridades competentes”, diz a empresa em nota. 

“Situação é um processo irreversível e impacto é sentido”, diz economista

Na avaliação do economista Cícero Péricles, a situação enfrentada pelos comerciantes dos bairros atingidos pela mineração é um “processo irreversível”.

“Há uma evidente perda econômica de dinâmica nas áreas afundadas e nas proximidades dos bairros atingidos, com fechamento de milhares de negócios e desvalorização do capital investido em décadas por estes. O deslocamento da população do bairro do Pinheiro, mas também do Mutange, Bom Parto e Bebedouro, financiada pelo Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação, já transferiu 97% dos moradores desta parte da cidade para outras localidades. Os negócios que existiam naquela área, aproximadamente 4.200, principalmente micro e pequenas empresas, entraram, também, em processo de negociação, sendo que 3.400 desses negócios apresentaram propostas e 2.400 já tiveram suas indenizações realizadas. Esse deslocamento é um processo irreversível e o impacto é sentido”, detalha.

O economista argumenta que mesmo nos casos onde os proprietários foram indenizados, toda a dinâmica foi afetada. E na maioria dos casos as empresas que irão se estabelecer em outros locais vão precisar enfrentar as dificuldades de todo novo negócio.

“Evidentemente que, com a saída das 14 mil famílias daqueles bairros, as atividades econômicas, principalmente seu comércio e o setor de serviços perderam seu público consumidor e a possibilidade de permanecer nos antigos locais. Parte desses negócios foram ou estão sendo reabertos em outros bairros, principalmente na parte alta de Maceió para onde a maioria das transferências estão sendo realizadas. Nessa reabertura, em local distante, as empresas enfrentarão as mesmas dificuldades dos negócios em estágio inicial: formação de clientela, descoberta das necessidades e demandas locais, concorrência com as atividades já estabelecidas”. 

Rede de apoio pode minimizar sofrimento causado

Outro ponto importante é a situação daqueles que não conseguirão se estabelecer como empresas novamente porque perderam o ponto de comércio, clientela como também a vontade de empreender.

“Outra parte desses negócios fecharam as portas e não serão mais reabertos porque perderam, além da clientela, parte de seu capital, mão de obra, conhecimento local, elementos que construíam as suas vantagens competitivas. Neste caso, como a transferência é, uma saída forçada, uma consequência do afundamento e não de uma alternativa melhor de funcionamento, muitos proprietários desses pequenos negócios perderam a motivação empresarial. No Pinheiro, alguns casos chamam a atenção, como as tradicionais padarias Belo Horizonte e Nossa Senhora da Conceição, que foram perdendo, paulatinamente, suas clientelas, num processo de isolamento que inviabilizou seus negócios. Dificilmente essas empresas se restabelecerão em outros bairros, onde esse tipo de comércio está saturado. O caso da Livraria Paquê é também exemplar porque não está na área oficial do afundamento, mas na vizinhança do bairro do Pinheiro, uma área esvaziada de população, que parte dela fazia parte de sua clientela. Assim sendo, não terá indenização, o que dificulta ainda mais sua reabertura em um local mais favorável”, detalha.

Para Cícero Péricles, mesmo diante de um cenário tão nebuloso é possível estruturar uma rede de apoio para que essas empresas não sofram ainda mais danos.

“Neste processo que já dura mais de dois anos, a maioria dos pequenos negócios já está em outros bairros ou a caminho de sua transferência. A saída para que essas micro e pequenas empresas se mantenham em atividade nas novas áreas depende de apoio financeiro, com crédito favorável e assistência técnica de instituições como o Sebrae e o BNB, para que os recursos das indenizações não desapareçam no consumo ou em investimentos que não apresentam possibilidades de manutenção ou crescimento”, avalia.

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