Alta dos alimentos reduz em até 90% doações de cestas

A alta na inflação, que ultrapassou os 12% no último ano, principalmente nos preços de alimentos essenciais, têm provocado redução drástica no volume de doações de cestas básicas. Instituições filantrópicas que realizam esse trabalho em Alagoas afirmam que a diminuição vem se acentuando mês a mês e chega até 90%. A saída, em alguns casos, tem sido adaptar as ações para continuar atendendo quem precisa.

É o caso da Organização Não Governamental (ONG) Amigos da Sopa. O líder, Tibério Rocha afirma que a retração no volume de doações chegou a 90%. A instituição atende 520 famílias e necessita de uma média mensal de 90 cestas básicas, entretanto, como depende que os donativos cheguem para realizar a distribuição, a saída tem sido adaptar o tipo de doação feita.

“O custo dos alimentos aumentou muito, é um momento difícil que todos estão passando, uma série de aumentos nos preços dos itens da cesta básica, no combustível e sabemos que isso impacta diretamente na realidade das famílias. Quem recebe salário mínimo tem que priorizar suas casas. Isso tem impactado bastante, estamos com muita dificuldade de conseguir cestas básicas. Então estamos nessa luta, estamos fazendo mungunzá, cuscuz, arroz doce, sopa para atender essas demandas, para não deixar essas famílias desassistidas. Aí empregamos o valor de comprar as cestas, produzindo as refeições porque aí conseguimos atender mais pessoas, e se fossemos utilizar para comprar cestas não atenderia”, explica.

Tibério explica ainda que as doações que são arrecadadas têm sido destinadas a famílias com maior vulnerabilidade, a exemplo de idosos que não podem trabalhar. Apesar de reconhecer as dificuldades, ele apela para que as pessoas em condições de contribuir continuem.

“Sabemos que é um momento difícil e nem todos podem. Mas não importa a quantidade de doações, sabemos que muitas vezes as pessoas têm vontade de doar, mas não têm condições, não têm alimento, mas sabem quem pode ajudar, e toda ajuda é benvinda para que a gente consiga dar continuidade e atender um número cada vez maior de famílias”, diz.

Pedro Torres, voluntário da Casa Dom Bosco afirma que tem havido queda tanto nas quantidades de doações que chegam à instituição, como na frequência. “Nesse período pós pandemia nós percebemos uma grande queda nas doações. A gente observa uma alta nos preços de alimentos e as doações acabaram ficando menores, diminuindo a frequência e as quantidades. Acredito que as instituições que também dependem de doações estão nessa mesma situação. Para se ter uma ideia, nunca precisávamos fazer feira, comprar os alimentos, os valores disponíveis eram empregados no pagamento de funcionários, custeio, mas atualmente estamos precisando ir ao supermercado para completar as doações.”

O padre Marcio Roberto dos Santos é responsável pela Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro no Vergel do Lago. Na paróquia existe a Pastoral da Solidariedade, que atende 135 famílias e a Bom Samaritano que acompanha 20 gestantes com doações.

“A Paróquia realiza campanha para que as pessoas sempre levem alimentos durantes as missas, sempre na terceira semana do mês. É um trabalho que nós fazemos há muitos anos e fazemos um trabalho muito cuidadoso para entregar a quem realmente precisa. Com a pandemia, muitas pessoas ficaram desempregadas e começamos a sentir muitas dificuldades em conseguir as cerca de 150 cestas básicas. Com essa guerra, o aumento de combustíveis, caíram mais essas doações, porque quando a gasolina aumenta, aumenta tudo. Há cerca de dois meses temos tido muitas dificuldades, precisamos recorrer a pessoas de outras paróquias e sensibilizar diante das necessidades”, explica.

Principais itens são os que mais tiveram elevação nos preços

O economista Renan Laurentino explica que os principais itens da cesta básica foram os que mais sofreram elevação de preços, o que justificaria a queda nas doações. Ele salienta ainda que a redução do poder de compra atrelada ao desemprego também são fatores preponderantes.

“As ‘famílias comuns’ estão sentindo o peso do preço dos produtos básicos como no quilo de feijão, quilo de arroz, pacote de macarrão, biscoito, fubá, açúcar, óleo. O fubá que é um item muito acessível tem apresentado alta de 80%. Então, assim como as pessoas, as famílias também tiveram perdas, não apenas salarial, alguns desempregados, o custo da casa que também ficou muito alto. Infelizmente doar, esse ato tão nobre se tornou numa quantidade menor, porque as pessoas mal estão conseguindo colocar comida nas suas mesas. A inflação, principalmente dos preços da cesta básica, é isso que a gente está falando, que são esses itens que a gente doa comumente. Então se afeta as famílias, naturalmente, elas também se retraem porque elas não estão com condição financeira confortável para poder doar mais”, avalia.

O especialista defende a necessidade de adoção de uma política econômica que estabilize a inflação.

“Infelizmente, até termos uma política econômica que estabilize a inflação, a gente vai sofrendo. Também sofremos com as externalidades negativas, como a guerra, ainda não saímos da pandemia (…) o Brasil ainda está com a taxa de inflação muito alta, uma taxa de desemprego alto, então é comum numa família ter mais de uma pessoa que está disponível para o mercado, procurando emprego. E isso acaba afetando, porque essas doações eu também acabo fazendo para os meus familiares, né? Pessoas minhas próximas que estão bem, estão com necessidades e aí a gente, enquanto família, acaba lastreando, acolhendo, apoiando, ajudando”, detalha. 

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