Lampião no Agreste Alagoano

O Brasil foi palco de vários fenômenos sociais. Um dos mais famosos foi o Cangaço, ocorrido no Nordeste entre o século XIX e meados do século XX. Seus membros, chamados de cangaceiros, percorriam diversos estados, atacando cidades, onde cometiam assassinatos e estupros e pilhavam o que podiam. O mais famoso cangaceiro foi Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião.

Entre o final da década de 1920 e década de 1930, o bando de Lampião passou a fazer assaltos no Agreste alagoano. O temor aos ataques esvaziava as roças das propriedades rurais.

Entre os anos de 1936 e 1937, a influência das ações do bando de Lampião, aliada ao período de estiagem, causava prejuízos financeiros aos produtores e ao Estado, que percebeu significativa queda em suas arrecadações.

Estavamos a braços com o domínio do banditismo, pois Lampeão (sic) por muito tempo dominou inteiramente os municípios de Marechal Floriano (Piranhas), Água Branca, Mata Grande, Pão de Assucar (sic), San’Ana do Ipanema, Traipú, Belo Monte, São Braz, e parcialmente os de Arapiraca e Pôrto Real do Colégio.

A sua influência se fazia sentir mesmo em parte dos municípios de Palmeira, Igreja Nova e Limoeiro, cujas populações, por isso, vivendo inquietas, não podiam lançar-se complemente aos seus labores ruraes (ALAGOAS, 1995).

Aproveitando uma de suas vindas por esses lados, Lampião teria mandado um mensageiro “pedir” dinheiro ao Capitão Ursulino Barbosa, residente no sítio Brejo, município de Limoeiro de Anadia. Caso não fosse atendido, seu bando atacaria sua fazenda. Em tom de quem estava preparado para a batalha, a resposta de Ursulino foi dada ao mensageiro: “diga a ele que venha ele mesmo buscar”, de acordo com os relatos de Nilo Barbosa em uma entrevista concedida no dia 05 de outubro de 2007.

Esperando pelo pior, a população foi avisada. Cada cidadão que se sentia ameaçado por Virgulino Ferreira passou a vigiar as entradas do município para combater seu bando, caso eles viessem atacar Limoeiro. No município, havia diversos homens poderosos, coronéis e fazendeiros, que não se acovardariam a um ataque dos cangaceiros.

Mulheres e crianças residentes na sede municipal se refugiaram dentro da Igreja Matriz. Segundo José Ferreira de Albuquerque, dentre as senhoras que buscava proteção no templo religioso estava Custódia Porto, conhecida como Sinhazinha que, na tentativa de acalmar os ânimos, dizia: “olhem minhas filhas, se acaso Lampião invadir a cidade não gritem, pois ele é homem religioso, devoto de padre Cícero, e na igreja ele não entra” (José Ferreira de Albuquerque, entrevista concedida em 09/12/2011). Talvez por perceber a coragem dos coronéis limoeirenses, felizmente o ataque não aconteceu. Lampião jamais assaltou qualquer fazenda do município.

Em repressão ao cangaço, que ameaçava a população e a economia do estado, uma verdadeira força tarefa policial foi criada pelo governador de Alagoas Osman Loureiro.

Em abril de 1938, em fuga das forças policiais, Lampião e seu bando saíram de Piranhas, percorrendo o rio São Francisco até chegar a Traipu. Passou por Girau do Ponciano, Lagoa da Canoa e Salomé (atual município de São Sebastião), até chegar a Arapiraca onde tentou assaltar, sem sucesso, o fazendeiro arapiraquense Lino de Paula Magalhães.

A rota de seguiu para Craíbas, quando, no dia 19 de abril de 1938, Lampião e 16 cangaceiros invadiram e assaltaram a povoação. Sobre essa passagem, o pesquisador Silvan Oliveira conta que

ao chegar na Vila, Lampião com os 16 cangaceiros armados, renderam os moradores que ainda permaneciam no local. Eles entregaram dinheiro, pertences pessoais e armas. Segundo os relatos de moradores de Craíbas, um senhor que se chamava “Nicolau” negou ter armas em casa, mas quando os cangaceiros entraram na residência encontraram munições. Por ter mentido para Lampião, Nicolau foi amarrado em um cavalo e arrastado até a lagoa da vila para ser “sangrado”.

Segundo Silvan Oliveira, nesse dia que Lampião esteve na Vila Craíbas, seria celebrado um casamento.  Quando o padre Epitácio estava a caminho foi avisado que Lampião estava saqueando os moradores. Ele rapidamente retornou a Arapiraca e avisou a três volantes do tenente Porfírio sobre o bando.

No momento que Lampião e os cangaceiros iriam executar Nicolau à beira da lagoa, os policiais chegaram atirando e os disparos de armas de fogo assustaram o bando de Lampião, que fugiu sem executar ninguém (BALBINO, 2017).

Finalmente, no dia 28 de julho de 1938, uma volante de Alagoas, sob o comando do tenente João Bezerra, composta de 49 policiais, armou uma emboscada para o bando de Lampião. A Grota de Angicos, no povoado de Poço Redondo, em Sergipe, foi palco da morte de Lampião, sua esposa, Maria Bonita, e de mais nove cangaceiros do bando. Os corpos foram degolados e as cabeças expostas na escadaria da Prefeitura de Piranhas (JURANDIR, 2015).

Sobre o episódio, Osman Loureiro, em entrevista ao Jornal de Alagoas, disse que

A morte de Lampeão é (foi) o resultado da campanha que a actual administração iniciou de repressão ao cangaceirismo.

Desde quando, arrastando difficuldades financeiras que pareciam tornar impossível a manutenção de uma força numerosa no sertão, ali coloquei o 2° Batalhão do Regimento Policial Militar, comecei a ouvir que era a idéa impraticável dentro das nossas possibilidades orçamentárias.

Fiz, no entanto, das fraquezas forças, e ahi temos o resultado da obstinação do Governo em manter a força onde ella tinha acantonada. O sertão está livre do seu maior flagelo, Lampeão (JORNAL DE ALAGOAS, Ed. 30 de julho de 1938).

Sobre a violência do ataque policial, levantamos uma questão: qual era o objetivo da tropa volante ao degolar o bando de Lampião?

O ato era simbólico e estratégico. Mostraria a população que as forças policiais haviam acabado com a vida de um mito do sertão nordestino. A prática de cortar cabeças é antiga. Politicamente, cortar cabeças e a separação do corpo é a subjugação do vencido. No imaginário popular religioso, a cabeça separada do corpo não permitiria a ressurreição do morto.

Imagem 1. As cabeças de Lampião e seu bando.

                                         Fonte: Wikipédia (2022).

Em seguida, as cabeças foram transportadas para Maceió, onde passaram por uma autópsia. No entanto, antes de chegar à capital, o cortejo macabro passou por algumas cidades e lugarejos alagoanos, tendo as cabeças expostas para visitação pública. Era preciso provar que Lampião havia morrido (TICIANELI, 2015).

De acordo com Frederico Pernambucano de Mello, no dia 28 de julho, tarde da noite, a caravana sai de Piranhas, com destino à Pedra de Delmiro Gouveia, aonde chegam já na madrugada do dia 29. No mesmo dia, a caravana passa por Água Branca, Mata Grande, Canapi, Maravilha, Poço das Trincheiras, chegando no começo da noite em Santana do Ipanema, onde fica até às 5 horas da manhã do dia 31 de julho, um domingo, quando o cortejo segue para Maceió, tendo escalas no decorrer do dia 31 em Palmeira dos Índios, Limoeiro de Anadia, Mosquito (atual Campo Alegre) e São Miguel dos Campos (MELLO, 2019). No entanto, Frederico, acabou não citando a passagem por Arapiraca, episódio defendido pelo historiador arapiraquense José Sandro da Silva e comprovado por mim e Elson Elys Gomes Leão em recente pesquisa no Arquivo Público de Alagoas.

Em Arapiraca, as cabeças foram expostas em frente à mercearia do senhor Pio Mattos (pai da tabeliã de Arapiraca, senhora Maria de Lourdes Albuquerque), localizada na bifurcação da Rua 15 de Novembro com a Praça Manoel André (praça central do Comércio) e a hoje Rua Pio Mattos, que liga-se ao Parque Ceci Cunha.

Imagem 2. Fragmento do Jornal de Alagoas, citando a passagem por Arapiraca e Limoeiro.

                               Fonte: Jornal de Alagoas, Maceió, 2 de agosto de 1938.

Imagem 3. Exposição das cabeças em Arapiraca.

                           Fonte: José Sandro da Silva.

Em Limoeiro de Anadia, Afrânio Cavalcanti Melo, repórter alagoano que fez a cobertura do cortejo para os Diários Associados, narrou a passagem da seguinte maneira:

O Desfile Macabro

Lembro-me como hoje. Os matutos olhavam os automóveis e caminhões passando com o desejo mórbido de se certificarem daquilo que o coração desejava ardentemente mas que fugia á evidência de uma certeza radical, a certeza de que Lampião era inatingível. Em Limoeiro de Anadia, parece que estou vendo, ao ser apresentada a cabeça do célebre bandoleiro, um tropeiro velho arergalou (sic) os olhos do tamanho de um bonde, respirou profundamente e falou alto, a voz quebrando o silencio: “Parece mentira, mas é ele mesmo. É o Capitão!” (MELO, 1948, p. 5).

Imagem 4. Fragmento de O Jornal (RJ), de 28 de julho de 1948, Ed. 8665.

                                       Fonte: O Jornal (RJ) (1948).

            Chegando a Maceió, depois dos estudos, os restos mortais dos cangaceiros foram levados para Salvador, onde foram expostos no Museu Nina Rodrigues por mais de três décadas, até finalmente serem entregues aos familiares para serem enterrados.

Gilberto Barbosa Filho é Pós-graduado em História, professor, historiador e escritor.

No ano do centenário da Emancipação Política de Arapiraca, lançará o livro O Baluarte da Emancipação – Esperidião Rodrigues da Silva, em parceria com o historiador José Sandro da Silva.

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