A CONFUSA HISTORIA(O)-GRAFIA DE ARAPIRACA: BREVES REFLEXÕES

Arapiraca se aproxima de completar seu primeiro século enquanto um espaço burocrático, ou seja, de sua emancipação. É a partir de quando se torna um município independente que se inicia todo seu processo de organização política administrativa própria, não mais vinculada a Limoeiro de Anadia. Obviamente que devemos sim fazer do ano de seu centenário um ano de muitas comemorações e eventos que demarquem a importância do momento. Isto é, se deve compreender suas manifestações artísticas e culturais, seus aspectos de importância política para alagoas, e principalmente sua história. E que sua história seja o foco dos historiadores locais, que estes sejam comprometidos com a historiografia que seja capaz de problematizar a cidade em seu centésimo aniversário de emancipação. E que superem o que chamo de confusa historiografia de Arapiraca.

Fazer historiografia é decifrar enigmas nos vestígios deixados pelos mais diversos meios e lugares em que os indivíduos percorreram e demarcaram, enquanto indícios, sua passagem e imprimi-los para dar testemunho sobre a história desses indivíduos e das sociedades em que viveram. É de se concordar que as fontes materiais podem nem sempre existir de forma a responder as questões da pesquisa historiográfica. Dessa maneira, o historiador que se debruça sobre o urbano deve tentar perceber a cidade em sua sensibilidade. Por essa perspectiva,

Cada cidade é um palimpsesto de histórias contadas sobre si mesma, que revelam algo sobre o tempo de sua construção e quais as razões e as sensibilidades que mobilizaram a construção daquela narrativa. Nesse curioso processo de superposição de tramas e enredos, as narrativas são dinâmicas e desfazem a suposta imobilidade dos fatos. Personagens e acontecimentos são sucessivamente reavaliados para ceder espaços a novas interpretações e configurações, dando voz e visibilidade a atores e lugares[i]

Olhar a cidade em sua sensibilidade significa apreender elementos que nos ajudem a construir um arsenal de palavras que nos sirvam para nomear a cidade. Dizer a cidade também é uma forma de construir seus significados, “Fala-se e conta-se, então, dos mortos, dos lugares que não mais existem, de sociabilidades e ritos já desaparecidos, de formas de falar desusadas, de valores desatualizados. Traz-se ao momento do agora, de certa forma, o testemunho de sobreviventes de outro tempo, de habitantes de uma cidade que não mais existem[ii]

Assim, o conhecimento histórico opera no sentir. Dessa forma, “O conhecimento sensível opera como uma forma de reconhecimento e tradução da realidade que brota não do racional ou das construções mentais mais elaboradas, mas dos sentidos, que vêm do íntimo de cada indivíduo[iii]”. Pode-se traduzir essa sensibilidade em uma espécie de poética do conhecimento, pois os homens aprendem a sentir e a pensar, ou seja, a traduzir o mundo em razões e sentimentos. As sensibilidades seriam, pois, as formas pelas quais indivíduos e grupos se dão a perceber, comparecendo como um reduto de representação da realidade através das emoções e dos sentidos.

A sensibilidade orienta o historiador a captar as representações que são elaboradas no espaço urbano, e a cidade é um arquivo de informações que podem ser de grande valia na produção do conhecimento histórico e ajudam compor a virtude do real, pois “demonstram um esforço de revelação/ocultamento dado tanto pelas imagens reais (cenários, paisagens de rua, arquitetura) como pelas imagens metafóricas (da literatura, pintura, poesia, discurso técnico e higienista etc.)[iv] Dessa forma, conclui-se que a “cidade é objeto de múltiplos discursos e olhares, que não se hierarquizam, mas que se justapõem, compõem ou se contradizem, sem, por isso, serem uns mais verdadeiros ou importantes que os outros[v]. Assim, a cidade de Arapiraca, deve ser tomada em sua multiplicidade pela qual se busca compreender o processo de elaboração de sua visibilidade e dizibilidade como espaço construído pelos indivíduos que participam de sua história.

QUEM CONFUNDE ARAPIRACA?

Esses dias, andando pelas ruas de Arapiraca, deparei com diversas demolições. Casas antigas, velhos imóveis, arquitetura de outrora. Tudo que fora construído, e que não serve mais para a paisagem urbana atual tem sido posto em escombros. Esses escombros levam consigo fragmentos da história da cidade, dia arcaica, dia moderna. Cidade confusa, usando uma expressão do cineasta arapiraquense, Leandro Alves.

Pensando nessa confusão, me ponho a questionar o seguinte: Quem confunde Arapiraca? Quem faz essa cidade confusa? Há várias formas sérias de se responder esse questionamento, e a especulação aqui provocada é uma destas. A história da cidade, posta em escombros, é uma enorme perda para as identidades locais, para as gerações futuras. Essas referências históricas destroçadas em nome da moderna ideia de tornar a cidade moderna causam o apagamento do passado que jaz com os mortos. Os mortos, construtores, já sendo mortos, são facilmente superados pelos que, sendo vivos, não se sabe até onde e quando, não passam de demolidores, nada constroem a não ser o presente fragmento confuso do agora. Cabe então, o historiador ir até o que disse Benjamin, que afirma que “O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer[vi]”. E o inimigo tem vencido.

Recentemente, foram demolidos aspectos do cotidiano do povo de ontem, expressos no mural do Artista plástico Ismael Pereira de Azevedo, que vivia na parede do salão de festas do, hoje escombros, clube dos fumicultores. E quando me refiro ao povo de ontem, estou falando de uma gama de pessoas que derramaram suor para construir essa Arapiraca que está sendo gradativamente demolida pelos senhores do agora. E os senhores do agora, são os ditos modernizadores, os que pensam apenas no imediato, ou no lucro imediato. Uma gente nefasta, iletrada. Gente que despreza a história, e o legado deixado pelos nossos recentes antepassados.

Outro fato a ser destacado é a demolição do clube do saudoso fumicultores, um exemplo de desprezo pela história local. Aquele lugar tinha imprimido em seus ladrilhos, seus corredores e até nas grades que o protegia, o registro de memórias de grandes eventos culturais, eventos políticos que decidiram os rumos de nosso município em dada época e contexto. É certo que outra estrutura, dita moderna, está sendo construída, mas isso não reconstrói a história do monumento anterior. Além de monumento, o clube que foi posto a baixo era um documento vivo e pulsante da história local. Uma parte da história da cidade acabou nessa triste e horrenda demolição. E um dos aspectos que deve ser observado em relação a esses monumentos é sua característica de transmissão de lembranças através de sua comunicação em uma linguagem que pretende um movimento de visita e revisita do passado.

Assim, considerando que deve haver um diálogo entre o monumento e seu observador, se deve considerar que isso nos mostra o caráter de comunicação deste em relação aos seus espectadores, pois “o que designamos por alma do monumento é sempre sua parte principal. Ela consiste, seja em inscrições, seja em figuras pintadas ou esculpidas que podem ser históricas ou alegóricas[vii]. Fechar os olhos para a destruição dos monumentos históricos de Arapiraca é, no mínimo, uma grande covardia. A alma desses monumentos é violentada pelos donos do poder com a conivência dos intelectuais locais que nada fazem, nada dizem. São várias as demolições de prédios antigos das regiões centrais de Arapiraca, assim como das periferias. Outro agravante é a conivência do poder público, que assiste esses atentados sem mover nenhum esforço para evitar. A cidade, aos olhos da população, é uma confusão sem dimensões.

Essa confusão proposital é um ato dos visionários baluartes da especulação imobiliária, do comércio atacado varejista e da gestão municipal, que há muito defende os interesses de grupos específicos, menos os interesses do povo. AQUI TUDO VIRA COMÉRCIO! O confuso para os que vivem Arapiraca intensamente será tomado como o “nada-disso” para os que vierem depois de nós, que não construímos, mas assistimos chorosos os que só sabem demolir a história, o passado, o futuro. Que possamos ao menos fazer um álbum de fotografias para levarmos aos nossos túmulos quando virarmos escombros dessa enorme confusão.

Diante do exposto até aqui, mais alguns questionamentos devem ser levantados para que haja reflexões sobre como se construir uma historiografia arapiraquense: é importante que no centenário de Arapiraca, os fazedores da historiografia, profissionais ou amadores devam continuar disputando as verdades sobre o mito fundador do que seria Arapiraca? Será possível que ninguém consegue enxergar que a pratica da ciência histórica deve debruçar-se sobre os problemas da sociedade atual? Se, ao invés de escreverem tratados imensos desprovidos de referencial teórico metodológico, pautados na descrição de documentos frágeis, memórias cada vez mais seletivas e individuais, esses intelectuais buscarem entender os processor que trazem Arapiraca à luz de uma confusão sem dimensões? A quem interessa que o que se convém chamar de história de Arapiraca?   

Notas.


[i] (PESAVENTO, Sandra. Cidades visíveis, cidades sensíveis, cidades imaginárias. Revista Brasileira de História, 2007, vol.27, n. 53.

[ii] (Ibdem, p.20).

[iii] (PESAVENTO, 2 Sensibilidades no tempo, tempo das sensibilidades. Universidade Federal do Rio Grande do Sul/BR. Nuevo Mundo Mundos Nuevos n°4, 2004.

[iv] (PESAVENTO, Sandra. Muito Além do Espaço: Por Uma História Cultural do Urbano. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, n. 16, 1995.

[v] PESAVENTO, Sandra J. O imaginário da cidade. Visões literárias do urbano. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002.

[vi] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Trad. Sergio Paulo Rouanet. 10. reimpr. São Paulo: Brasiliense, 1996. v. 1: magia e técnica, arte e política.

[vii] POULOT, Dominique. Uma história do patrimônio no Ocidente, séculos XVIII-XIX: Do monumento aos valores. São Paulo: Estação da Liberdade, 2009.

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