Cachorros conseguem apender os nomes de objetos, segundo pesquisadores

A análise dos impulsos elétricos no cérebro dos cães indica que eles conseguem formar uma imagem mental do significado das palavras que conhecem, aprendendo os nomes de pelo menos alguns objetos, diz um novo estudo. Os novos dados, se confirmados, podem encerrar um longo debate sobre qual seria a relação dos cachorros com a linguagem humana, mostrando que eles de fato captam alguns fundamentos dela.

O trabalho sobre o tema está saindo na revista especializada Current Biology e foi liderado por Marianna Boros e Lilla Magyari, ambas da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria. O país da Europa Oriental tem uma forte tradição nos estudos comportamentais com cães. Também assinam o trabalho cientistas da Universidade de Stavanger, na Noruega.

O dilema que o estudo recém-publicado buscou enfrentar é o seguinte: usando técnicas mais simples, a impressão é que alguns poucos cachorros são capazes de aprender até algumas centenas de nomes de objetos, enquanto a maioria dos bichos leva zero nesse tipo de prova.
Até agora, porém, os testes eram feitos diretamente com os objetos -por exemplo, vendo se o cão era capaz de identificar algum deles só pelo nome e levá-lo para o dono. Boros, Magyari e seus colegas propuseram que a complexidade desse processo poderia estar levando os bichos a se enrolarem, mas que, ainda assim, eles teriam alguma capacidade de conceitualizar os objetos na cabeça.

Para testar isso, eles adaptaram um tipo de experimento que é realizado também com crianças humanas pré-verbais (ou seja, que ainda não falam). Trata-se do chamado paradigma da violação semântica, no qual a grande sacada é mostrar para o participante do experimento algum objeto e depois usar um nome errado para designá-lo.

Como seria de se esperar, o paradigma da violação semântica tende a produzir uma certa “bugada” ou tilte na cabeça do participante -a reação meio escandalizada de quem pensa “Espere aí, esse negócio é um carrinho, mas ele disse que é uma bola!”. Acontece que é possível capturar o momento do tilte por meio da medição da atividade cerebral, obtida por eletroencefalografia.

Trata-se de um método não invasivo, que envolve a simples colocação de eletrodos na superfície da cabeça. Foi o que a equipe de pesquisa conseguiu fazer com 18 cachorros, que participaram dos experimentos junto com seus donos.

Para participar, os tutores dos cães escolhiam um conjunto de cinco objetos com os quais seus animais já estavam familiarizados. Depois, os cães ouviam uma gravação de áudio (feita pelos próprios donos) dizendo, por exemplo: “Olha, Totó! A bolinha” (ou qualquer outro objeto usado no teste). Após uma pausa, o dono mostrava o objeto, que podia bater com a palavra usada pelo tutor ou não.

Resultado do procedimento: a grande maioria dos cachorros (14 dos 18 bichos participantes) apresentou sinais claros de atividade cerebral de surpresa diante da “violação semântica”. A chance de isso acontecer não parece ter relação com o suposto “vocabulário” dos cães, de acordo com seus donos -ou seja, tanto faz se, segundo os tutores, determinado cachorro conhecia muitas ou poucas palavras.

É a primeira vez que esse tipo de fenômeno é demonstrado de forma direta, por meio de medições da atividade cerebral, numa espécie não humana, de acordo com os pesquisadores. Outro detalhe importante tem a ver com o intervalo deliberado entre a frase do tutor chamando a atenção para o objeto e o aparecimento desse objeto. A ideia é que o tempo entre uma coisa e outra teria levado os bichos a formar uma imagem mental da coisa mencionada, indicando uma compreensão real da palavra, e não uma simples associação entre som e objeto.

“O seu cão é capaz de entender mais coisas do que demonstra diretamente”, resumiu Magyari em comunicado oficial. “Os cães não estão simplesmente aprendendo um comportamento específico que corresponde a certas palavras, mas podem entender de verdade o significado de algumas palavras individuais, tal como os seres humanos.”

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