“Falar do interior de Alagoas quando o assunto é autismo é falar de um verdadeiro deserto assistencial. (…) Essas crianças do interior seguem esquecidas, sem diagnóstico e, o pior, sem tratamento.”
O desabafo contundente é do neuropsicólogo Luan Gama. Em entrevista especial ao portal CadaMinuto, ele joga luz sobre uma realidade cruel e frequentemente silenciada: a profunda desigualdade no acesso à saúde e à educação para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) fora da capital alagoana.
Enquanto Maceió concentra os principais gargalos de filas e burocracia, cruzar os limites da capital rumo ao Sertão, à Zona da Mata ou ao Agreste significa, para muitas famílias, entrar em um território de abandono.
Estimativas baseadas nos dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) apontam que Alagoas pode ter mais de 15 mil crianças e adolescentes no espectro.
No entanto, sem um censo estadual eficiente, a maioria esmagadora dessas mentes segue invisível para as políticas públicas, vegetando em cidades sem qualquer estrutura especializada.
Madrugadas na estrada por uma consulta
Para quem mora em municípios de pequeno porte, a busca pelo direito ao tratamento de um filho se transforma em uma rotina extenuante de viagens. Sem neuropediatras ou psiquiatras infantis disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS) localmente, a única saída é o deslocamento.
“A família precisa pegar aqueles ônibus de Tratamento Fora do Domicílio, o TFD, sair de madrugada da sua cidade para tentar uma consulta em Maceió ou em Arapiraca”, relata o Dr. Luan Gama.
O especialista adverte que o tratamento do autismo não se resolve com uma consulta médica a cada seis meses.
O TEA exige uma abordagem multiprofissional e de alta intensidade, que inclui Psicologia com abordagem em análise do comportamento (terapia ABA), Fonoaudiologia especializada em linguagem e Terapia Ocupacional com foco em integração sensorial.
“Me diga: como uma mãe que mora em uma cidade do interior, de baixa renda, vai conseguir levar o filho três, quatro vezes por semana para Maceió para fazer essas terapias? É inviável”, questiona.
O resultado desse isolamento geográfico é trágico: “Elas vão crescendo sem desenvolver a fala, sem se alfabetizar, muitas vezes se tornando adultos extremamente dependentes e com comportamentos agressivos por falta de suporte na infância.”
O que é o TEA e quais os sinais que exigem atenção imediata?
O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento com a qual a pessoa já nasce. O cérebro se desenvolve de forma atípica, afetando principalmente a comunicação, a interação social e gerando comportamentos repetitivos ou interesses restritos.
No interior, onde o acesso a especialistas é escasso, o olhar atento dos pais em casa e dos médicos nos postos de saúde locais é a primeira linha de defesa.
O especialista destaca os principais sinais de alerta na infância:
- Dificuldade de engajamento: A criança não faz contato visual sustentado e parece não escutar quando chamada.
- Atraso severo na fala: Não emitir palavras ou não apontar para demonstrar interesse por volta de 1 ano e meio a 2 anos.
- Uso instrumental do outro: Pegar na mão do adulto e levá-la até um objeto, usando a mão do pai ou da mãe como se fosse uma ferramenta.
- Movimentos repetitivos: Balançar as mãos de forma constante (flapping) quando muito feliz ou irritado, ou andar frequentemente na ponta dos pés.
- Rigidez e hipersensibilidade: Crises extremas com mudanças de rotina e incômodo severo com barulhos (como liquidificador ou fogos).
Inclusão de fachada: “Estar matriculado não é estar incluído”
A escassez do interior não se limita aos hospitais e clínicas; ela ecoa com força dentro das salas de aula.
Luan Gama aponta que o que ocorre em grande parte das escolas municipais e estaduais de Alagoas é uma “inclusão no papel”.
As escolas cumprem a obrigação legal de realizar a matrícula, cuja recusa é crime, mas falham drasticamente na permanência e no suporte ao aluno.
“Falta o profissional de apoio escolar, o famoso mediador. Muitas vezes a escola coloca uma pessoa que não tem formação nenhuma, às vezes é um estagiário de qualquer área, ou até um funcionário da limpeza que foi deslocado para ficar olhando a criança para ela não correr pelo pátio. Isso não é inclusão”, denuncia o neuropsicólogo.
Para combater esse isolamento pedagógico, o especialista orienta que os pais cobrem ativamente o PEI (Plano de Ensino Individualizado). O currículo e as avaliações devem ser adaptados ao nível de suporte de cada aluno.
Amparadas pela Lei Berenice Piana, as famílias têm o direito garantido de exigir esse apoio especializado do Estado e do Município.
A ciência estabelece que o tratamento padrão-ouro para o autismo deve ser intensivo, variando de 10 a 40 horas semanais.
No entanto, a realidade do SUS e dos planos de saúde em Alagoas costuma se resumir a pacotes burocráticos de apenas duas horas semanais de terapia.
“Isso é o que a gente chama de ‘enxugar gelo’. O cérebro da criança autista precisa de consistência e repetição de estímulos em alta intensidade para criar novas conexões sinápticas. Duas horas na semana não mudam o prognóstico de uma criança com atraso severo de desenvolvimento”, explica Gama.
Diante do “não” sistemático das operadoras de saúde e da lentidão das filas públicas, as famílias são empurradas para a judicialização como última alternativa para salvar o futuro de seus filhos. Esse processo cobra um preço altíssimo de quem cuida.
“A rotina é exaustiva. A mãe, em vez de ser apenas mãe e cuidar do filho, vira advogada, vira gestora de crises, vira ativista. O adoecimento mental dessas famílias é gigantesco. É um sistema que empurra as pessoas para o esgotamento”, conclui o especialista.





