Resistente às longas estiagens do Semiárido, espécie nativa do Nordeste deu nome a um morro de Canudos e, após a guerra no sertão baiano, o termo atravessou o país e ganhou um novo significado urbano
Uma planta típica da Caatinga, conhecida pela extraordinária capacidade de enfrentar a seca e pelos espinhos que revestem sua estrutura, está por trás de uma das palavras mais conhecidas do vocabulário brasileiro: favela.
A faveleira ou favela (Cnidoscolus quercifolius) é uma espécie característica das regiões secas do Nordeste. A Embrapa registra sua ocorrência na Caatinga e destaca sua elevada resistência à estiagem, além de diferentes possibilidades de aproveitamento, inclusive como forrageira e na recuperação de áreas degradadas.
Mas a planta acabou entrando para a história brasileira por uma razão que ultrapassa a botânica.
A ligação com a Guerra de Canudos
A explicação mais aceita para a origem do uso urbano da palavra remonta à Guerra de Canudos, ocorrida entre 1896 e 1897 no sertão da Bahia.
Nas proximidades de Canudos existia uma elevação conhecida como Morro da Favela, assim chamada pela presença da planta faveleira na região. Registros históricos relacionam diretamente a denominação do morro à espécie Cnidoscolus quercifolius.
Depois da guerra, soldados que haviam participado da campanha retornaram ao Rio de Janeiro. Parte deles se estabeleceu no Morro da Providência, e a denominação Morro da Favela passou a ser empregada naquele espaço, numa referência ao morro conhecido pelos combatentes no sertão de Canudos. Pesquisas históricas mostram que, nos primeiros anos do século XX, a imprensa e as autoridades passaram progressivamente a utilizar essa denominação para a comunidade instalada no local.
Com o passar do tempo, a palavra deixou de designar apenas aquele morro carioca e passou a ser utilizada de maneira mais ampla para denominar assentamentos urbanos populares. A partir da década de 1920, o emprego do termo com esse significado já estava disseminado.
Uma sobrevivente da Caatinga
A história da faveleira também chama atenção pelas características da própria espécie.
Adaptada às condições severas do Semiárido, ela dispõe de diferentes mecanismos para enfrentar a escassez de água. A Embrapa aponta entre essas características a queda das folhas, redução da superfície foliar, proteção dos estômatos contra a evaporação, presença de cortiça no caule e armazenamento de reservas no caule e nas raízes.
A perda das folhas durante a estação seca é uma importante estratégia de sobrevivência. Estudos realizados pela Embrapa Semiárido identificaram maior intensidade de queda foliar justamente no período de estiagem, comportamento característico de espécies arbóreas adaptadas à Caatinga.
Além da resistência, a faveleira apresenta potencial econômico e ambiental. Pesquisas apontam possibilidades de utilização como forrageira, planta medicinal, fonte de óleo, alimentação e recuperação de áreas degradadas.
Uma palavra que saiu do sertão e ganhou o Brasil
A trajetória do termo é uma curiosidade histórica singular: antes de “favela” identificar comunidades urbanas brasileiras, era o nome popular de uma planta da Caatinga.
Da vegetação espinhosa do sertão baiano, o nome chegou ao Morro da Favela, em Canudos. Dos combatentes que retornaram da guerra, atravessou centenas de quilômetros até o Rio de Janeiro. E, posteriormente, deixou de ser apenas um nome próprio para adquirir um significado presente até hoje na realidade social e urbana brasileira.
Assim, escondida por trás de uma palavra conhecida mundialmente está uma história profundamente ligada ao Nordeste, à Caatinga e à Guerra de Canudos — e tudo começa com uma resistente planta sertaneja chamada faveleira.






