Fundado no século XVI, o bairro de Jaraguá tem importância para Maceió não apenas pela atividade econômica ligada ao porto marítimo, mas também por sua relevância histórica. Com ruas e monumentos históricos, o bairrocarrega memórias que permanecem vivas entre moradores, trabalhadores e pessoas que transitam na região.
Um desses monumentos é a famosa Praça Dois Leões, situada em frente ao Museu da Imagem e do Som (Misa). A idealização da praça é atribuída ao artista visual alagoano Rosalvo Ribeiro, que à época retornava da França cheio de inspiração, e teria se inspirado em referências europeias para propor elementos decorativos, incluindo a réplica da Estátua da Liberdade – obra do francês Frédéric Auguste Bartholdi.
As peças decorativas da praça representam dois leões, um tigre, um lobo e um javali. Embora hoje seja conhecida como Praça Dois Leões, inicialmente se chamava Praça General Lavenère Wanderley.
A praça é palco de apresentações culturais, como o coco de roda e shows de bandas locais, além de receber vendedores de comidas típicas da cidade. Mesmo com algumas pichações (em forma de símbolos políticos) em partes do patrimônio a praça resiste ao tempo, assim como o próprio bairro. Repleta de memórias, ela é ponto de encontro no horário de almoço, a exemplo do Toca do Selva, um restaurante adaptado em forma de trailer.
Entre as manifestações culturais que ocorrem no bairro estão apresentações de maracatus e atrações afro, além do Desfile de Escolas de Samba. O bairro também recebe o evento Artnor, voltado ao fortalecimento da produção artístico-cultural local. Temos ainda dois grandes eventos promovidos pela prefeitura, no estacionamento do Jaraguá: o Verão Massayó, o qual costuma agitar a cidade no mês de janeiro; e o São João Massayó, que reúne grande público no mês junino, com a presença de artistas nacionais e locais.
Preservação e renovação
Além da praça, o Jaraguá conta com novos monumentos, tais como a Capelinha, em frente ao mar, onde casamentos são realizados, e a Mão de Deus, localizada na Nova Orla – inaugurada em abril de 2026, é um novo cartão-postal com 1,5 km de extensão, conectando paisagem, história e lazer entre o mar e o bairro. A escultura está voltada para o mar, e tem 4,5 metros de altura e 2,5 metros de diâmetro. Concebida como ponto de interação visual com a paisagem marítima, a obra foi idealizada pelo arquiteto Tacio Rodrigues, responsável pelo projeto urbanístico da região, e executada pelo artista plástico Ely Mendes.
Esses são alguns dos patrimônios históricos e atuais que o bairro reúne. Entre preservação e renovação, Jaraguá mostra sua importância para Maceió e sua capacidade de resistir ao tempo. É o que conta Tereza Maria, moradora do Jaraguá “desde o nascimento”; de acordo com ela, o bairro mudou de forma positiva, pois se modernizou e a economia foi crescendo ao longo do tempo. Ela também diz que o bairro tem seus patrimônios bem cuidados, como os da Praça Dois Leões e o Coreto de Jaraguá.
Ao ser questionada sobre a valorização da história do Jaraguá nos dias atuais, ela afirma: “As pessoas estão valorizando, como sempre foi. A única situação é que hoje os eventos culturais ocorrem no Centro de Convenções”.
No entanto, é importante ter manutenções periódicas para que a estrutura do bairro preserve suas características históricas, continuando assim com o charme que ele carrega. Para garantir as ações de manutenção do bairro, segundo o assessor de Comunicação da Secretaria de Infraestrutura de Maceió (Seminfra), Dinêz Costa, a prefeitura realiza ações de manutenção corriqueiras tanto em Jaraguá como em outros bairros, como limpeza de galerias e tapa-buracos.
Para o historiador Lucas Roberto, a importância do bairro está diretamente ligada ao porto marítimo. Devido à atividade econômica que é exercida no local. Ele acrescenta: “por ter um espaço considerável (o estacionamento), o bairro acaba por receber muitos eventos culturais e, consequentemente, pessoas de todos os lugares, não somente de Maceió”. Por ser um bairro antigo, diz o historiador, Jaraguá tem uma importância histórica por causa dos prédios antigos, oriundos da cultura europeia, pois muitos europeus vieram para Alagoas a partir da região.
À respeito dos movimentos sazonais, isto é, dos tempos de pico, que faz com que o bairro seja relevante, Lucas Roberto afirma que há um incentivo por parte do poder público para atrair as pessoas. Uma das formas para isso é o investimento em infraestrutura, a exemplo da Nova Orla. Por isso, é comum que haja, em alguns momentos, altos e baixos no bairro.
Outros patrimônios
Outro patrimônio importante para a história do bairro é o Coreto de Jaraguá, que foi inaugurado em 1927 pelo prefeito da época, Jayme de Altavilla. Localizado em frente ao Memorial à República, o espaço é usado para apresentações culturais, passeios, atividades físicas e contemplação do pôr do sol. O coreto é outro exemplo que resiste ao tempo, pois com a mudança do polo comercial para o Centro e, depois, para as praias da Ponta Verde e Pajuçara, Jaraguá entrou em um período de abandono na metade do século XX.
O espaço sofreu com a maresia e com a falta de manutenção. Nas décadas de 1990 e 2000, com projetos de revitalização, o coreto voltou a ser o centro das atenções, especialmente com a criação do evento Jaraguá Folia.
Hoje, ele deixou de ser um lugar apenas para a elite ver a banda passar, pois as bandas do Exército e Polícia Militar tocavam nos fins de semana no local. O coreto é um dos símbolos da resistência cultural de Maceió e funciona como ponto de referência para a abertura e o encerramento dos blocos. É de onde saem muitos dos cortejos de maracatu e coco de roda. Como monumento tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o coreto também é pauta constante quando o assunto é o patrimônio histórico de Alagoas.

Em relação aos casarões, o historiador Lucas Roberto cita a Associação Comercial de Maceió como um dos locais indispensáveis, pois, ainda hoje, muitos estudantes fazem fotos de formatura no local. Além disso, ele também menciona a importância da Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, que também é outro patrimônio histórico e parte essencial na história do bairro.
Novos setores da economia
Por fim, o bairro Jaraguá continua vivo, não somente em memórias, mas no cotidiano dos maceioenses. Com novos caminhos sendo abertos, a exemplo do Centro de Inovação do Polo Tecnológico (CIPT), um local feito para coworking, espaço para empreendedores e desenvolvedores de tecnologia, assim como espaço para a prática do ‘beach tennis’ e comedorias, a região vem sendo renovada a cada dia. No CIPT, estudantes e profissionais da tecnologia ou autônomos, utilizam do espaço para desenvolverem suas atividades; enquanto no ‘beach tennis’ amigos se encontram para desfrutarem de um momento de lazer.
Lucas Roberto conclui: “atualmente, no bairro, há bares, expressões culturais e reuniões de conversas de amigos. Logo, o bairro continua sendo relevante para a cidade de Maceió.” Sendo assim, entre a Praça Dois Leões, o Coreto, os casarões, a Nova Orla e os novos espaços ligados à tecnologia e ao lazer, Jaraguá mostra que sua história não está parada no passado.
O bairro segue sendo transformado, mas mantém nas ruas, nos monumentos e nos encontros cotidianos parte importante da memória de Maceió. Preservar Jaraguá, portanto, não significa impedir sua renovação, mas garantir que cada nova intervenção dialogue com a história que fez do bairro um dos territórios mais simbólicos da capital alagoana. Entre permanências e mudanças, Jaraguá continua sendo um espaço onde Maceió reconhece sua origem, disputa seus usos e projeta novas formas de viver a cidade.
Fonte : Cada Minuto





