Todos os anos, entre o fim de janeiro e o dia 2 de fevereiro, Arapiraca renova uma das manifestações religiosas e culturais mais importantes de sua história: a Festa de Nossa Senhora do Bom Conselho, padroeira do município. Mais do que um acontecimento do calendário católico, a celebração está diretamente ligada à formação do antigo povoado que, décadas depois, se transformaria em uma das maiores cidades de Alagoas.
A origem dessa devoção remonta à segunda metade do século XIX e à trajetória de Manoel André Correia dos Santos, reconhecido como fundador de Arapiraca. Segundo os registros históricos divulgados pelo município, ele chegou à região com sua família e estabeleceu moradia nas proximidades de uma árvore conhecida como arapiraca, cuja sombra teria servido como abrigo durante os primeiros tempos da ocupação. Ao redor daquele ponto, novas famílias foram chegando e um pequeno núcleo populacional começou a se formar.
Em 1864, Manoel André iniciou a construção de uma capela, erguida no local onde sua esposa havia sido sepultada. O templo foi concluído e inaugurado no ano seguinte, com bênção e celebração da primeira missa em 2 de fevereiro de 1865. A pequena igreja tornou-se um ponto de encontro para os moradores e ajudou a consolidar a vida religiosa e comunitária do povoado.
A tradição local conta que Manoel André percorreu aproximadamente 100 quilômetros a cavalo para trazer de Bom Conselho, em Pernambuco, uma imagem religiosa destinada à capela. Algumas narrativas identificam a peça original como uma representação de Nossa Senhora da Guia, cuja devoção teria passado a ser conhecida em Arapiraca como Nossa Senhora do Bom Conselho, em referência à cidade pernambucana de onde foi trazida. Outras fontes municipais referem-se diretamente à imagem da padroeira. Apesar das diferenças presentes nos relatos históricos, a viagem de Manoel André permanece como o símbolo fundador da devoção arapiraquense.
A partir da capela, a população começou a se reunir para missas, orações, batizados, casamentos e encontros comunitários. A fé na santa ajudou a fortalecer os vínculos entre as famílias e acompanhou o desenvolvimento econômico e social da localidade. Dessa forma, a história da festa passou a caminhar ao lado da própria história de Arapiraca.
Com o crescimento do povoado, as celebrações foram ganhando dimensão. As orações realizadas pelas primeiras famílias deram lugar a uma programação mais ampla, composta por novenário, celebrações eucarísticas, momentos culturais e uma grande procissão. Atualmente, os festejos tradicionalmente começam em 23 de janeiro e seguem até 2 de fevereiro, data dedicada ao encerramento da festa e considerada o seu ponto mais solene.
A cavalgada que revive a viagem de Manoel André
Entre os momentos mais simbólicos está a tradicional cavalgada, que reúne cavaleiros e amazonas para conduzir a imagem da padroeira até o centro de Arapiraca. O cortejo revive o percurso atribuído a Manoel André quando ele trouxe a imagem de Pernambuco, estabelecendo uma ligação entre o presente e as origens da cidade.
Ao chegar ao Largo Dom Fernando Gomes, diante da Concatedral, a imagem é recebida por milhares de fiéis. Em seguida, acontece a procissão pelas ruas centrais e a celebração da Santa Missa. A Prefeitura de Arapiraca destaca que a cavalgada e a procissão constituem o apogeu da programação anual.
O evento também é marcado por manifestações populares, encontros familiares e atividades promovidas pelas comunidades católicas. Durante vários dias, moradores de diferentes bairros e povoados participam das celebrações, mantendo uma tradição transmitida entre gerações.
Um patrimônio religioso e cultural
A primeira capela dedicada à padroeira, atualmente relacionada à Igreja do Santíssimo Sacramento, representa um dos marcos históricos do município. Foi ao redor da religiosidade, das relações familiares e das atividades comerciais que o antigo povoado se desenvolveu até conquistar sua emancipação política, em 1924.
Por essa razão, a Festa de Nossa Senhora do Bom Conselho ultrapassa os limites de uma celebração exclusivamente religiosa. Ela representa a memória dos primeiros moradores, a coragem dos pioneiros e o sentimento de pertencimento de um povo que cresceu preservando suas raízes.
A cada edição, Arapiraca refaz simbolicamente o caminho de sua própria origem. Nos cânticos, nas orações, na cavalgada e na procissão, a população mantém viva uma história iniciada ainda no século XIX, quando uma pequena capela passou a reunir as famílias que ajudariam a construir a futura Capital do Agreste.
Mais de 160 anos depois, Nossa Senhora do Bom Conselho continua sendo um dos maiores símbolos da fé, da identidade e da história de Arapiraca.






