Nascido em 28 de julho de 1936, no Sítio Cavaco, em Arapiraca (AL), o maestro Jovelino José de Lima é reconhecido como um dos maiores nomes da música alagoana e uma das personalidades culturais mais importantes da história do município. Maestro, compositor, arranjador e instrumentista, construiu uma trajetória marcada pelo talento, pela perseverança e pela coragem de fazer do frevo e da música nordestina um patrimônio cultural de Arapiraca.
Desde a infância demonstrava uma vocação incomum para a música. Fascinado pelas emissoras de rádio Tupi, Tamoio e Nacional, ouvia escondido as transmissões musicais enquanto os pais, pequenos agricultores, insistiam para que deixasse o rádio de lado e fosse trabalhar na roça. Ainda menino, confeccionava instrumentos de sopro com folhas de abóbora e reproduzia as melodias que escutava, revelando um talento que mais tarde encantaria gerações.
Determinados a vê-lo seguir a vida no campo, seus pais não apoiavam o sonho de se tornar músico. Aos 14 anos, pediu ao pai uma sanfona e recebeu uma resposta negativa. Sem desistir, cultivou uma pequena plantação de fumo, vendeu a produção e comprou o instrumento com o próprio dinheiro. Algum tempo depois, apaixonou-se pela Banda de Música de Arapiraca. Como o pai também não aceitava que aprendesse clarinete, voltou a plantar fumo e, com o lucro obtido, adquiriu um pistom. Em apenas três meses já integrava a banda, tornando-se discípulo do saudoso maestro Nelson Palmeira, um dos maiores responsáveis por sua formação musical. Posteriormente trocou o pistom pelo saxofone, instrumento com o qual também se destacou.
Seu talento rapidamente o transformou em um dos principais músicos de Alagoas. Além de exímio executante de pistom e saxofone, destacou-se como compositor e arranjador. Entre suas primeiras obras figuram “Prece a São João” e “Nordeste Diferente”, gravadas por Zé do Rojão. Mais tarde recebeu o convite para musicar a letra escrita pelo professor Pedro de França Reys, criando o histórico Hino Oficial da Associação Sportiva Arapiraquense (ASA). A obra, com arranjo do maestro Lourival Oliveira e interpretação de Claudionor Germano, tornou-se um dos maiores símbolos da identidade alvinegra e permanece viva na memória dos torcedores.
Inspirado por mestres pernambucanos como Nelson Ferreira, Capiba e Levino Ferreira, Jovelino decidiu enfrentar um desafio que poucos ousavam assumir: produzir frevo longe do tradicional eixo Recife–Olinda. Em 1967 compôs o frevo “Palmeirão”, homenagem ao maestro Nelson Palmeira, tornando-se finalista de um concurso nacional e iniciando uma carreira que o colocaria entre os principais nomes do carnaval nordestino.
Sua orquestra começou modestamente, com apenas cinco músicos, mas rapidamente conquistou reconhecimento e tornou-se presença obrigatória nos grandes carnavais de Alagoas e de outros estados do Nordeste. Em 1975 gravou, em Recife, o primeiro disco da série “Carnaval Temperatura”, que alcançou enorme sucesso com músicas como “Tchau, Meu Bem”, “Saramandaia”, “Palmeirão”, “Folia da Ilusão”, “Chá de Chuchu”, “Maceió”, “Índio Não Sabe Falar” e “Meninas, a Festa Acabou”. Ao todo, gravou oito LPs de frevo e dois LPs de forró, da série “Boca de Forno”, consolidando uma carreira rara para um artista que viveu e produziu sua obra no agreste alagoano.
Ao longo de décadas, realizou memoráveis apresentações em Arapiraca, Maceió, Pernambuco e diversas cidades nordestinas, participando de eventos promovidos pela Organização Arnon de Mello, dos tradicionais Banhos de Mar à Fantasia e de inúmeros bailes carnavalescos que marcaram época. Também dedicou parte de sua vida à formação de novos músicos, transmitindo seus conhecimentos a centenas de instrumentistas que seguiram seus passos.
O compromisso de Jovelino com Arapiraca sempre foi além da música. Demonstrando espírito comunitário, doou um terreno para a construção de uma escola municipal, gesto reconhecido posteriormente pelo poder público. Também recebeu diversas homenagens em vida, entre elas o título de grande homenageado do Folia de Rua de Arapiraca e o reconhecimento do projeto Raízes de Arapiraca, que eternizou sua trajetória como uma das maiores referências da identidade cultural do município.
Mesmo diante de uma carreira extraordinária, muitos consideram que sua contribuição artística ainda não recebeu todas as honrarias compatíveis com sua importância histórica. Afinal, poucos músicos conseguiram realizar o que Jovelino Lima realizou: construir uma carreira sólida no frevo fora do tradicional berço pernambucano, gravar dez discos, sobreviver exclusivamente da música e transformar sua arte em patrimônio cultural de sua terra.
Ao lado da esposa Margarida, da família e de inúmeros amigos, o maestro continua sendo exemplo de resistência, dignidade e amor à cultura popular. Sua trajetória demonstra que talento, perseverança e fé podem vencer qualquer obstáculo. Seu legado permanece vivo nas bandas, nas orquestras, nos carnavais, no Hino do ASA e, principalmente, na memória afetiva dos arapiraquenses que reconhecem em Jovelino José de Lima um dos maiores artistas da história de Alagoas.






