Falar de Mestre Elias Fortunato de Souza é falar de um homem que transformou a própria vida em um compromisso permanente com a preservação da cultura popular alagoana. Mais do que mestre do Guerreiro, ele é um verdadeiro guardião da memória coletiva, um homem que dedicou décadas a manter vivas tradições que atravessam gerações e ajudam a construir a identidade cultural de Arapiraca e de Alagoas.

Natural de Coité do Nóia, Mestre Elias encontrou em Arapiraca o lugar onde fincou raízes e consolidou sua missão. Há mais de cinco décadas vivendo na comunidade das Cacimbas, tornou-se uma das maiores referências da cultura popular no Agreste alagoano, fazendo daquele bairro um importante espaço de resistência cultural.

Seu encantamento pelo Guerreiro começou ainda na infância. Aos sete anos de idade, acompanhava fascinado as apresentações do folguedo em sua cidade natal, observando atentamente cada canto, cada personagem e cada movimento. O que para muitos era apenas uma festa popular, para o pequeno Elias era uma verdadeira escola de vida. Aos dezoito anos, passou a integrar grupos de Guerreiro, aprendendo diretamente com mestres tradicionais e levando a manifestação para diversas cidades alagoanas, como Boca da Mata, Atalaia e Cajueiro.

Toda essa experiência culminou, em setembro de 2006, na criação do Guerreiro Asa Branca, grupo fundado com um propósito muito maior do que realizar apresentações folclóricas: preservar um patrimônio cultural ameaçado pelo tempo. O nome escolhido simboliza a resistência do povo nordestino e a esperança de que as tradições sempre encontrem caminho para permanecer vivas.

Sob sua liderança, o Guerreiro Asa Branca tornou-se um espaço de convivência entre gerações. Crianças, jovens, adultos e idosos compartilham ensaios, apresentações e conhecimentos, mantendo viva uma manifestação genuinamente alagoana que reúne música, dança, teatro, poesia e religiosidade popular. O grupo é formado, em grande parte, por familiares e moradores da comunidade, demonstrando que a cultura se fortalece quando nasce dentro da própria família e do cotidiano do povo.

Além de mestre do Guerreiro, Elias também é sanfoneiro autodidata, talento herdado do pai, e ficou conhecido nas Cacimbas pelos tradicionais forrós que animam a comunidade. Sua atuação ultrapassa os palcos: ele tornou-se educador popular, transmitindo conhecimentos, formando novos brincantes e despertando o sentimento de pertencimento cultural em cada geração.

Seu trabalho recebeu importantes reconhecimentos ao longo da vida. Foi contemplado, por duas vezes, com o Prêmio Culturas Populares do Ministério da Cultura, recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas e representou o Nordeste no XV Encontro de Mestres do Mundo, realizado no Ceará, levando o nome de Arapiraca ao cenário nacional como símbolo da resistência da cultura popular.

Nos últimos anos, Mestre Elias continua ampliando seu legado por meio de projetos culturais voltados às novas gerações, como iniciativas que levam o Guerreiro Asa Branca às escolas, aproximando crianças e adolescentes da história, da música e das tradições do povo alagoano.

A maior conquista de Mestre Elias, entretanto, não cabe em medalhas ou certificados. Ela se revela quando vê seus filhos, netos e tantos outros jovens vestindo os chapéus coloridos do Guerreiro, cantando as antigas toadas e mantendo viva uma tradição secular. Sua própria neta, Julhinha, iniciou a dança aos sete anos e sonha em dar continuidade ao grupo, prova de que o verdadeiro patrimônio não está apenas na manifestação cultural, mas nas pessoas que escolhem preservá-la.

Mestre Elias Fortunato de Souza demonstra que uma cidade não cresce apenas com ruas, edifícios ou desenvolvimento econômico. Ela cresce quando preserva sua memória, valoriza seus mestres e transmite sua cultura às novas gerações. Enquanto houver homens como ele, o Guerreiro continuará cantando, dançando e lembrando que a identidade de um povo nasce do respeito às suas raízes.

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