Coreto, fonte luminosa, cinemas Leão e Trianon, desfiles em finais de semana, tudo isto faz-me lembrar desta praça querida, não esquecendo as retretas das bandas de música do Clube dos Fumicultores e Nossa Senhora do Bom Conselho. Estou a falar da manifestação cultural conhecida como pastoril, quase sempre apresentada a época do Natal. Além do centro da cidade, ele surgia sempre no Alto do Cruzeiro, na Canafístula (ainda hoje), no Cavaco.
Falar do pastoril em Arapiraca, precisamente na hoje praça Marques da Silva, não há ninguém melhor que o artista plástico, teatrólogo, homem do rádio José Carmo de Sá. Escreveu ele:
“O primeiro pastoril foi ensaiado por minha mãe. Otília de Sá, em parceria com D. Maria do Juca, a mãe do saudoso Né do Juca, em 1948. As principais pastorinhas eram as filhas – Mestra: Lacy; Contramestra: Neguinha; Diana: Edleuza. Eram garotas bonitas e arrecadavam muitos votos para eleger a rainha do pastoril.
“O que chamava a atenção era o figurino confeccionado com papel crepon.
“As apresentações eram feitas na sala da residência dos JUCAS, vizinho a igreja de S. Sebastião, ou melhor, vizinho a residência do sr. Zeferino Magalhães, o responsável da construção da igrejinha. Na época, não existia a entrada para a rua Estudante José de Oliveira Leite; atrás eram vários sítios com muitos cajueiros e mangueiras. A atual praça Marques da Silva, chamava-se Rua Nova, no centro, apenas a cacimba que fornecia água para a população. Aliás essa rua teve vários nomes, vejam só: de Rua Nova passou a se chamar Rua Gabino Besouro. Na administração do prefeito Luiz Pereira Lima, foi denominada Praça Durval de Góis Monteiro, e foi construída a primeira praça da cidade, com postes e bancos no estilo colonial; flores e plantas adornavam o logradouro público que ganhava uma harmonia maravilhosa com uma plantação do famoso pé de Ficus; um senhor que viera de Viçosa para cuidar da jardinagem da praça, chamado Balduíno, e que, ao cortar o Ficus, transformava-o em animais e pássaros”.
Tempos depois, J. Sá, um empreendedor cultural, fundou o Pastoril Imaculada Conceição, que foi considerado o melhor do estado. Mesmo culturalmente importante, quase sem ajuda, o arapiraquense de coração resolveu acabar com aquela manifestação de alegria e reflexão.
Que tal, a lembrança:
“Boa noite a todos – Chegamos agora – Com o nosso pastoril – Todo cheio de glória, – E nossas pastorinhas, – Com muita alegria, – Em vir festejar – O nosso Messias”
Ou o canto das pastorinhas:
“No firmamento uma estrela apareceu – Com raios vivos de beleza sem igual – Anunciando que Jesus nasceu – Dando brilhos nesta noite de Natal”.
E a cantiga da Borboleta:
“Eu sou uma borboleta – Sou bela, sou feiticeira – Ando no meio das flores – Procurando quem me queira”.
No fim, para se despedir, cantavam as pastorinhas:
“Pastorinhas se despedem – Do presépio de Belém – De Jesus e de Maria – Até para o ano que vem – Adeus senhores, adeus senhoras – Até para o ano – Ao romper da aurora”.
Outros pastoris surgiram em Arapiraca, nos bairros do Alto do Cruzeiro, na Canafístula, mas, sem dúvida, os que se apresentavam no coreto ou em frente à casa de J. Sá sobressaiam.
Mas, antes mesmo de J. Sá o pastoril fazia a festa de Arapiraca. Aqui mesmo, em frente à igreja de São Sebastião, a professora Marieta Torres ensaiava um pastoril formado por meninas arapiraquenses, como: Rosinha Leite, Elvira Leite, Enaura Torres, Angelina Magalhães, Enedina, Cecília Lúcio, Estela Magalhães, Maroquinha Brito, Marieta Brito, Estela Lúcio, Nésia, Loisa, Amélia.
O pastoril, uma herança portuguesa, e que vai do Natal até os dias de Reis, era e é ainda hoje formado por dois cordões – o encarnado e o azul, simbolizando a disputa entre cristãos e os mouros nas terras portuguesas. Nele, há a Mestra (toda de encarnado), a Contra Mestra (toda de azul), a Diana (que simboliza a paz entre o encarnado e o azul), o Anjo (representando o sagrado), o Pastor (com seu cajado, é que leva todo o pastoril até a manjedoura), a Cigana Egípcia (que lia o futuro), a Florista (a distribuir pétalas de rosas), a Borboleta (que, no imaginário, guiava o pastoril até onde tinha nascido Jesus. E, importante, as Pastorinhas, que representavam o povo do lugar, a reverenciar o Filho de Deus.
Nos tempos do pastoril em frente à Igreja de São Sebastião a música saía de uma pequena orquestra de filhos da terra, com Virgílio Rodrigues (no trombone), Né Firmino (no piston), Júlio Rodrigues (no clarinete), Chico Leite (no trombone), Gondim (no contra-baixo), Filadelfo (no bombo), Antônio Nobre (no pandeiro).
Havia os defensores dos cordões azul e encarnado; os partidários do cordão azul eram João Ferreira, Pedro João, José Imídio, Pedro Alexandre, Gervásio, João Biu, Né de Paula, Zé Farias, Esperidião Rodrigues; os partidários do cordão encarnado eram Zé Bernardino, Lino de Paula, José Pedro.
As apresentações do pastoril não terminavam antes da meia noite.
Texto : Manoel Lira




