Poucos nomes exerceram influência tão profunda na educação de Arapiraca quanto o professor Pedro de França Reis. Mestre por vocação, administrador escolar, poeta, compositor e defensor da educação pública de qualidade, ele dedicou mais de cinco décadas de sua vida à formação de milhares de crianças e jovens, tornando-se uma das figuras mais respeitadas da história educacional de Alagoas.
Sua trajetória ultrapassa os limites da sala de aula. Pedro Reis foi responsável por transformar a educação em instrumento de desenvolvimento social, deixando um legado que permanece vivo nas instituições que fundou, nos hinos que escreveu e nas gerações que ajudou a formar.
Origem humilde e paixão pelo conhecimento
Pedro de França Reis nasceu em 31 de janeiro de 1907, na então vila de Triunfo, atual município de Igreja Nova (AL). Era filho de Luís de França Reis e Marceonila de França Reis, pertencentes a uma humilde família de ferreiros.
Seus pais sonhavam vê-lo sacerdote, mas as dificuldades financeiras impediram que seguisse a carreira religiosa. Ainda assim, recebeu sólida formação moral e cristã, valores que norteariam toda a sua vida.
Concluiu o curso primário aos dez anos e continuou seus estudos particulares com o professor Rosendo Borges. Em seguida, mudou-se para Penedo, onde conquistou a amizade do cônego Dr. Teotônio Ribeiro e Silva, responsável por facilitar seu ingresso no tradicional Colégio Jacomo Calheiros, dirigido pelo professor Tertuliano Filho.
Mais tarde concluiu sua formação na Escola Normal de Maceió, iniciando precocemente sua carreira no magistério.
Um professor que percorreu Alagoas
Apenas aos 15 anos, Pedro Reis já lecionava no ensino primário em Penedo.
Sua competência logo o tornou referência na educação estadual.
Ao longo da carreira dirigiu e lecionou em diversas cidades alagoanas, entre elas:
- Penedo;
- Delmiro Gouveia;
- Santana do Ipanema;
- Pão de Açúcar;
- Porto Real do Colégio;
- Piaçabuçu;
- Traipu;
- Arapiraca.
Em 1937 foi nomeado Delegado Regional de Ensino, função de grande prestígio na época.
Por onde passou destacou-se pela disciplina, organização e compromisso com o ensino.
A perseguição política
Embora fosse admirado como educador, Pedro Reis também enfrentou inúmeras perseguições políticas.
Defensor da autonomia das escolas, recusava qualquer interferência partidária na administração do ensino.
Essa postura lhe custou sucessivas transferências promovidas por governos estaduais.
Em 1943, chegou a ser nomeado para dirigir o Grupo Escolar Adriano Jorge, primeiro grupo escolar de Arapiraca.
Entretanto, por decisão do então governador Ismar de Góis Monteiro, sua nomeação foi anulada antes mesmo de assumir o cargo.
O episódio tornou-se um dos maiores exemplos das interferências políticas na educação alagoana da época.
Mesmo diante dessas dificuldades, Pedro Reis jamais abandonou sua missão de ensinar.
A chegada a Arapiraca
Quando chegou a Arapiraca, a cidade experimentava forte crescimento impulsionado pela economia do fumo.
O aumento da população exigia escolas capazes de atender à demanda por educação formal.
Percebendo essa necessidade, Pedro Reis começou oferecendo aulas particulares.
Reuniu apenas 24 alunos e fundou, em 1º de março de 1943, o Educandário Instituto São Luís.
O nome da escola homenageava simultaneamente seu pai, Luís de França Reis, e São Luís, padroeiro dos professores.
Em 1945, a instituição foi oficialmente registrada junto ao Departamento Estadual de Educação.
O nascimento de uma das maiores escolas de Arapiraca
Como ainda era servidor público estadual, Pedro Reis não podia exercer oficialmente a direção da escola.
Por isso convidou seu ex-aluno Professor Manoel de Oliveira Barbosa, então com apenas 16 anos, para assumir formalmente a direção do Instituto.
Na prática, porém, Pedro Reis permanecia como grande administrador e idealizador do projeto pedagógico.
Inicialmente o Instituto funcionou em um salão localizado na Rua do Comércio, na Praça Marques da Silva.
Posteriormente passou para sua própria residência, localizada na atual Rua Estudante José de Oliveira Leite.
Graças ao apoio da comunidade arapiraquense, foi possível construir uma sede própria.
O novo prédio foi inaugurado em 5 de julho de 1953, tornando-se um dos maiores símbolos da educação particular do interior de Alagoas.
Uma escola que marcou gerações
Durante décadas o Instituto São Luís foi referência em qualidade de ensino.
Sua primeira turma reuniu 24 alunos, sendo 13 meninos e 11 meninas, algo bastante moderno para a época.
Com o passar dos anos, milhares de estudantes passaram por suas salas de aula.
Era comum que duas ou até três gerações de uma mesma família estudassem na instituição.
Pedro Reis acreditava que a educação deveria formar o cidadão por completo.
Além das disciplinas tradicionais, estimulava:
- valores morais;
- princípios religiosos;
- disciplina;
- civismo;
- música;
- esportes;
- cultura.
Criou cursos noturnos para trabalhadores, permitindo que jovens que precisavam trabalhar durante o dia também pudessem estudar.
Implantou ainda um moderno Curso de Datilografia, preparando alunos para concursos públicos e para o mercado de trabalho.
Embora utilizasse métodos disciplinares característicos da época, valorizava igualmente o mérito acadêmico.
Os melhores alunos recebiam medalhas de ouro, prata e bronze, tinham suas fotografias expostas no quadro de honra e participavam de solenidades públicas de entrega de certificados, sempre na presença das famílias e das autoridades locais.
Um homem de cultura
Pedro Reis não limitou sua atuação à educação.
Era apaixonado por literatura, música e poesia.
Escreveu a letra do Hino Oficial de Arapiraca, posteriormente oficializado pela Câmara Municipal.
Também foi autor do Hino da Agremiação Sportiva Arapiraquense (ASA), eternizando o orgulho pelo “pendão alvinegro”.
Como reconhecimento por sua enorme contribuição cultural, a Casa da Cultura de Arapiraca recebeu seu nome.
Também foi agraciado com o título de Cidadão Honorário de Arapiraca, concedido pela Câmara Municipal, por iniciativa do então presidente Antônio Ventura de Oliveira.
Os últimos anos
Aposentado pelo Estado em 1950, dedicou-se exclusivamente ao Instituto São Luís.
Permaneceu à frente da instituição até sua morte.
Pedro de França Reis faleceu em 2 de abril de 1975, aos 68 anos, após enfrentar graves problemas de saúde, entre eles a cegueira e uma trombose.
Após seu falecimento, o professor Manoel de Oliveira Barbosa continuou administrando o Instituto até 1990, quando as dificuldades econômicas do país impediram a continuidade das atividades da escola.
Durante seu auge, o Instituto São Luís chegou a realizar aproximadamente mil matrículas por ano, consolidando-se como uma das mais importantes instituições educacionais da história de Arapiraca.
Um legado eterno
Mais do que um professor, Pedro de França Reis foi um verdadeiro construtor de oportunidades. Sua dedicação transformou a educação em instrumento de desenvolvimento social e ajudou a moldar a identidade cultural e intelectual de Arapiraca.
Seu nome permanece vivo não apenas nas homenagens que recebeu, mas, sobretudo, na memória de milhares de ex-alunos e educadores que encontraram em seus ensinamentos inspiração para construir suas próprias histórias.




