Marca tridáctila localizada na zona rural de Sousa tem cerca de 60 centímetros de comprimento e pode ter sido deixada por um grande dinossauro carnívoro há aproximadamente 140 milhões de anos
Uma descoberta no Sertão da Paraíba voltou a colocar a região de Sousa em evidência no cenário da paleontologia brasileira. Pesquisadores localizaram na comunidade Floresta dos Borbas, na zona rural do município, uma gigantesca pegada fossilizada de dinossauro, considerada pelos responsáveis pela pesquisa como a maior desse tipo já identificada no Brasil.
O vestígio impressiona pelas dimensões. As primeiras divulgações apontaram aproximadamente 60 centímetros de comprimento por 55 centímetros de largura. Medições posteriores, considerando a distância entre os dedos, chegaram a indicar 63 centímetros de largura. A pegada é tridáctila — apresenta três dedos — característica associada aos dinossauros terópodes.
Segundo o paleontólogo Fábio Cortes, coordenador do projeto geopaleontológico e arqueológico da Bacia do Rio do Peixe, comparações com outros registros brasileiros indicam que não havia sido documentada no país uma pegada tridáctila de dinossauro carnívoro com essas proporções.
Um grande predador caminhou pelo Sertão
As análises preliminares sugerem que a marca tenha sido produzida por um grande dinossauro carnívoro, possivelmente um abelissaurídeo, grupo de terópodes que teve importante presença na América do Sul durante o período Cretáceo.
Os pesquisadores estimam que o animal poderia alcançar cerca de seis metros de comprimento. A pegada teria sido deixada há aproximadamente 140 milhões de anos, durante o Cretáceo Inferior, quando a paisagem do atual Sertão nordestino era completamente diferente daquela encontrada hoje.
Um cuidado importante, porém, deve ser observado: embora algumas divulgações tenham atribuído diretamente a pegada ao gênero Abelisaurus, a identificação mais prudente neste momento é tratá-la como pertencente possivelmente a um abelissaurídeo. A descoberta ainda passa por estudos e, nas primeiras divulgações, não havia sido formalmente descrita em artigo científico revisado por pares.
Floresta dos Borbas já era conhecida pela ciência
O local da descoberta não é novidade para os paleontólogos. A Floresta dos Borbas pertence à Formação Antenor Navarro, na Bacia do Rio do Peixe, e já havia sido objeto de estudo científico.
Em 2002, pesquisadores publicaram trabalho descrevendo Floresta dos Borbas como uma localidade com pistas de dinossauros. Na ocasião, foram documentadas duas pistas de terópodes e três pegadas de saurópodes, demonstrando que diferentes grupos de dinossauros circularam pela região durante o Cretáceo Inferior.
A nova descoberta amplia ainda mais a importância científica do lugar.
Um patrimônio pré-histórico no coração do Nordeste
Sousa já é internacionalmente conhecida pelo Vale dos Dinossauros, onde centenas de vestígios fossilizados preservam evidências da passagem desses animais pelo território que hoje corresponde ao Sertão paraibano.
A região integra o complexo geológico da Bacia do Rio do Peixe, um verdadeiro arquivo natural da pré-história nordestina. As rochas sedimentares preservaram pegadas produzidas há mais de 100 milhões de anos, permitindo que pesquisadores reconstruam aspectos da fauna e do ambiente existentes naquele período.
A nova pegada foi encontrada em um afloramento rochoso a cerca de 15 a 19 quilômetros da área urbana de Sousa. Após sua identificação, o local foi isolado para auxiliar na preservação enquanto prosseguem os trabalhos de catalogação e análise.
O projeto responsável pelas pesquisas conta com fomento do Governo da Paraíba, por meio da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties).
Mais de 140 milhões de anos depois, uma marca deixada no solo por um enorme predador permanece registrada nas rochas do Sertão. A descoberta reforça algo que Sousa já demonstrava há décadas: sob o solo da Paraíba está preservado um dos mais extraordinários capítulos da história dos dinossauros no Brasil.






