A literatura alagoana ganhou projeção nacional na edição 2026 do Prêmio Sesc de Literatura. Guilherme de Miranda Ramos, de Maceió, venceu a categoria Poesia com “Geografia do desconforto”, enquanto o também alagoano Josiano Saulo Diniz, o Jô Saulo, ficou entre os finalistas na categoria Conto.
O desempenho dos dois escritores ganha ainda mais dimensão diante da concorrência registrada neste ano. Em sua 23ª edição, o Prêmio Sesc de Literatura alcançou recorde histórico, com 2.969 obras inscritas de diferentes regiões do Brasil. Foram 1.203 trabalhos em Poesia, 960 em Romance e 806 em Conto.
Escritor, compositor e produtor cultural, Guilherme de Miranda Ramos, de 54 anos, conquistou o primeiro lugar em Poesia com uma obra que percorre questões familiares, sociais e existenciais. “Geografia do desconforto” é organizada a partir de três territórios simbólicos — o sangue, o asfalto e o espelho — que conduzem o leitor por temas como memória, identidade, desigualdade, trabalho, solidão, saúde mental e pertencimento.
Ao receber a notícia da vitória, Guilherme lembrou o percurso necessário até que uma obra esteja pronta para disputar espaço no cenário literário. Para ele, o resultado recompensa um processo que envolve leitura, pesquisa, escrita, seleção e, também, as inseguranças que acompanham quem submete o próprio trabalho à avaliação.
“O caminho é árduo. É preciso ler muito, pesquisar, escrever, selecionar o material e, quando o livro fica pronto, a gente quer ver esse livro no mundo. Então participa de concursos e editais querendo ganhar, mas, no fundo, tem aquela síndrome do impostor dizendo: ‘não se anima muito, não, porque você pode não ganhar’. Que bom que, desta vez, a poesia foi maior que a síndrome do impostor”, disse ao Alagoas Notícia Boa (ALNB).
A conquista provocou uma emoção que o escritor diz ainda não conseguir traduzir completamente em palavras. Recorrendo justamente à linguagem como matéria de seu ofício, Guilherme brinca com a dificuldade de descrever o que sentiu ao saber que “Geografia do desconforto” havia vencido uma das principais premiações literárias do país.
“Para um escritor, posso até fazer o trocadilho de dizer que estou sem palavras. É tanta coisa junta que ainda não sei definir o que estou sentindo. É uma felicidade como poucas, algo sublime. Acho que só vou conseguir dizer o que estou sentindo depois de muitos dias. Neste momento, o sentimento ainda não é poesia; é um sentimento que eu ainda não alcancei de tão sublime que ele é”, diz.
Guilherme conta que o contato com a arte começou ainda na infância, depois de encontrar um poema em uma revista levada para casa pela mãe. “Essa poesia me encantou, eu ficava reescrevendo como se o texto fosse meu”, recorda. A partir daí, a literatura passou a acompanhá-lo, assim como a música e outras formas de expressão artística.
Autor de livros infantis e de crônicas, Guilherme também possui textos premiados em editais e concursos. Na música, é idealizador do Intermídia Estúdio de Criação e do projeto Quarentemas, compõe trilhas sonoras para literatura, audiovisual e artes cênicas e produz singles e álbuns autorais.
No livro vencedor, o escritor decidiu experimentar novos caminhos na própria escrita. “Para esse livro eu saí da minha zona de conforto e experimentei formatos que antes eu não tinha coragem. Estou ansioso para encontrar outros escritores, trocar experiências com essas pessoas e ser fonte de inspiração para que eles não desistam dos seus sonhos, como eu não desisti do meu”, afirma.
Jô Saulo entre os finalistas em Conto
Alagoas também marcou presença entre os finalistas da categoria Conto com Josiano Saulo Diniz, o Jô Saulo. Poeta, contista, compositor, músico e professor de Literatura, ele teve seu trabalho selecionado em uma disputa que reuniu 806 obras inscritas nessa categoria.
Jô Saulo define a chegada à final como uma mistura de felicidade e reconhecimento, especialmente diante da dimensão nacional da premiação e da concorrência entre escritores de todo o país.
“O sentimento é de uma emoção gigantesca. A gente se inscreve esperando ganhar, claro, mas sabe que é extremamente concorrido e difícil. Ficar entre os finalistas na categoria Conto, diante de tantas obras inscritas, é surpreendente. É uma felicidade muito grande”, afirma.
Para o escritor, o resultado também representa a confirmação de uma trajetória construída ao longo dos anos, especialmente diante das dificuldades enfrentadas por quem se dedica à produção artística no Brasil.
“Viver de arte no Brasil é muito difícil e chegar à final de um prêmio do nível do Sesc representa o reconhecimento de um trabalho pelo qual a gente vem batalhando há muito tempo. Acho que esse reconhecimento é o mais importante”, destaca.
A conquista de Guilherme teve ainda um significado especial para Jô Saulo. Os dois são amigos, e o finalista em Conto comemorou a vitória do conterrâneo na categoria Poesia. “A tristeza de não ter ganhado foi compensada por um grande amigo ter vencido na categoria Poesia. Guilherme é um amigo pessoal e um escritor talentosíssimo, que merece muito. Então fiquei com uma felicidade em dobro”, conta.
Premiação nacional
Além de Guilherme de Miranda Ramos em Poesia, o Prêmio Sesc de Literatura 2026 teve como vencedores Mariana do Nascimento Ramos, de Brasília (DF), na categoria Romance, com “A vontade das coisas mortas”, e Anacã Agra, de João Pessoa (PB), em Conto, com “A replicação do sangue”.
As obras foram avaliadas por especialistas convidados para cada categoria. O júri de Romance foi formado por Maria Esther Maciel e Itamar Vieira Junior; o de Conto, por Miriam Alves e Dau Bastos; e o de Poesia, por Cida Pedrosa e Edimilson de Almeida Pereira.
Criado para incentivar novos talentos da literatura brasileira, o prêmio é destinado a autores inéditos, que nunca tenham publicado livros na categoria em que concorrem. Os vencedores recebem R$ 30 mil e têm suas obras publicadas pela Editora Senac Rio. Os livros também passam a integrar uma programação de circulação pelo país, com clubes de leitores, encontros e bate-papos com o público.
Os autores vencedores serão apresentados em uma cerimônia com noite de autógrafos no fim do ano. Após a publicação, os livros serão comercializados em livrarias físicas e online de todo o país e distribuídos para bibliotecas e escolas da rede Sesc.






