Todos os anos, entre os dias 23 de janeiro e 2 de fevereiro, Arapiraca renova uma das mais antigas e significativas tradições de sua história: a Festa de Nossa Senhora do Bom Conselho, padroeira do município. Muito além de uma celebração religiosa, o evento representa um verdadeiro reencontro dos arapiraquenses com suas raízes, reunindo fé, cultura, memória e identidade em torno daquela que acompanha a trajetória da cidade desde seus primeiros anos.

Ao longo de quase dois séculos, a festa atravessou gerações e tornou-se um dos maiores patrimônios culturais e religiosos do Agreste alagoano, preservando costumes que ajudaram a construir a identidade da chamada Capital do Agreste.

A origem da devoção

A história da devoção remonta ao ano de 1844, quando o fundador de Arapiraca, Manoel André Correia dos Santos, trouxe de Palmeira dos Índios uma imagem mariana montada em um andor, transportada a cavalo e acompanhada por uma banda de pífanos.

Curiosamente, a imagem venerada era originalmente Nossa Senhora da Guia, representada coroada e segurando o Menino Jesus. Com o passar do tempo, porém, a devoção popular consolidou-se sob o título de Nossa Senhora do Bom Conselho, nome que permanece até os dias atuais.

A chegada da imagem ao pequeno povoado foi um acontecimento marcante. Enquanto os pífanos anunciavam sua aproximação, o povo recebia a santa com fogos de artifício, inaugurando uma tradição que atravessaria gerações.

A primeira capela

Em 1855, Manoel André enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida com o falecimento de sua esposa, Maria Ferreira Valente.

Após sepultá-la ao lado de sua residência, decidiu construir naquele mesmo local uma pequena capela em sua homenagem e também como demonstração de sua profunda fé.

Para ornamentar o templo, encomendou uma imagem religiosa na cidade de Bom Conselho, em Pernambuco, fortalecendo ainda mais a devoção mariana que começava a se consolidar em Arapiraca.

O nascimento da paróquia

A pequena igreja foi concluída em 1865, quando foi celebrada a primeira missa do povoado.

No ano seguinte, 1866, aconteceu o primeiro novenário dedicado à padroeira.

Naquela época, a festa era realizada em 15 de agosto, data litúrgica de Nossa Senhora da Guia.

Foi somente nas primeiras décadas do século XX que a comunidade decidiu transferir a celebração para 2 de fevereiro, data que permanece como referência das festividades religiosas até hoje.

O crescimento da igreja

Com o rápido desenvolvimento econômico e populacional de Arapiraca, impulsionado principalmente pela agricultura e pela cultura do fumo, a antiga capela tornou-se pequena para acolher o número crescente de fiéis.

Em 1912, o então pároco Padre Macedo, em consenso com a comunidade católica, decidiu demolir a antiga construção erguida por Manoel André para levantar uma igreja maior e mais adequada às necessidades da população.

A nova matriz tornou-se símbolo do crescimento da cidade e consolidou a Praça Manoel André — antiga Rua do Comércio — como o principal centro religioso de Arapiraca.

A tragédia de 1944

No entanto, a história da igreja foi marcada por um episódio dramático.

Em 5 de agosto de 1944, uma forte chuva provocou o desabamento da igreja construída por Padre Macedo.

A perda abalou profundamente a comunidade católica, que viu ruir um dos seus maiores símbolos de fé.

Pouco tempo depois, iniciou-se uma grande mobilização para reconstruir o templo.

A missão foi conduzida pelo Monsenhor Epitácio Rodrigues, conhecido carinhosamente como Padre Pita, responsável por erguer a nova igreja que, anos mais tarde, se transformaria na atual Concatedral de Nossa Senhora do Bom Conselho, sede da Diocese de Penedo na região.

Muito além da religião

Ao longo de sua história, a Festa de Nossa Senhora do Bom Conselho sempre ultrapassou o aspecto exclusivamente religioso.

Durante décadas, o evento movimentou o comércio, reuniu famílias, promoveu encontros culturais, apresentações musicais, bandas de pífanos, procissões, quermesses e diversas manifestações populares.

A tradição iniciada por Manoel André continua viva e representa um dos momentos mais importantes do calendário cultural e religioso de Arapiraca.

Mais do que celebrar uma padroeira, a festa celebra o nascimento de uma cidade construída pela fé, pela perseverança e pelo espírito comunitário de seu povo.

Hoje, milhares de romeiros, visitantes e moradores participam das celebrações que transformam Arapiraca em um grande centro de devoção mariana, mantendo viva uma tradição iniciada há quase 180 anos.

Um patrimônio da memória arapiraquense

A Festa de Nossa Senhora do Bom Conselho é muito mais que um evento religioso. Ela faz parte da identidade de Arapiraca, preservando valores, fortalecendo laços familiares e mantendo viva a memória dos pioneiros que ajudaram a construir a cidade.

Celebrar a padroeira é também celebrar a própria história de Arapiraca.

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