Produtor rural há mais de 20 anos, Gilson Marques encontrou na ovinocultura uma alternativa para ampliar a produção e fortalecer a agricultura familiar na Zona da Mata de Alagoas, especialmente no município de São José da Laje.

A ovinocultura é o ramo da zootecnia dedicado ao estudo e à criação de ovinos — como carneiros, cordeiros e ovelhas — com o objetivo de produzir carne, leite e derivados, além de outros produtos, como a lã.

Com o apoio da Cooperativa dos Produtores e Empreendedores Rurais da Agricultura Familiar do Estado de Alagoas (Cooperfal), Gilson adotou uma estratégia para impulsionar a criação e a comercialização da carne de cordeiro: o confinamento.

Segundo o produtor, a ideia surgiu após perceber que a criação de ovelhas matrizes não apresentava os resultados esperados devido à falta de conhecimento técnico, de controle sanitário e de instalações adequadas.

“Vendi os animais e comecei a montar toda a estrutura da propriedade. Implantei sete hectares de piquetes rotacionados para controlar a verminose, que é o maior gargalo da ovinocultura na nossa região. Passei um ano formando as pastagens, implantando os piquetes e preparando toda a estrutura”, relatou.

Como funciona

Enquanto estruturava a área destinada às matrizes, Gilson iniciou o sistema de confinamento, que exigia um espaço menor. Ele passou a comprar cordeiros magros, engordá-los e entregar aos clientes animais dentro do padrão de qualidade exigido pelo mercado.

“Como eu já tinha mercado na cidade, comecei a trabalhar com boi, porco e cordeiro no açougue. Só que eu não conseguia manter um padrão de qualidade. Uma semana aparecia carneiro bom, na outra era um animal mais velho, menos gordo, sem o padrão que os clientes buscavam. Foi aí que surgiu a necessidade de produzir o meu próprio cordeiro”, explicou.

Os piquetes são áreas cercadas, geralmente com madeira ou concreto, destinadas ao manejo dos animais. Segundo Gilson, os ovinos permanecem em cada piquete por até 17 dias e, em seguida, são transferidos para outra área, reduzindo a incidência de verminoses.

Os cordeiros entram no piquete quando o pasto está entre 40 e 50 centímetros de altura e são retirados quando a vegetação atinge entre 10 e 15 centímetros. “Assim, a gente evita tanto a proliferação dos parasitas quanto a degradação da pastagem”, afirmou.

Atualmente, Gilson abate entre 12 e 15 cordeiros por semana em seu frigorífico, mantendo um padrão de qualidade. Além da ovinocultura, ele também trabalha com a criação de suínos. Ele parou de criar bois.

“A gente vem trabalhando com protocolos e buscando cada vez mais conhecimento. Fazemos a vermifugação correta das matrizes e implantamos a estação de monta para concentrar os partos no mesmo período. O Programa Cordeiro também me ajudou muito, principalmente na organização da estrutura da propriedade, permitindo aumentar a capacidade de produção”, relatou.

O produtor destacou ainda que abastece uma churrascaria bastante conhecida da região por meio da produção obtida no sistema de confinamento.

“Nossa meta é crescer ainda mais. Hoje, a estrutura da propriedade tem capacidade para alojar até 800 cordeiros confinados. Com isso, queremos firmar parcerias com frigoríficos e fornecer animais para outros estados. Enquanto não conseguimos o selo para comercializar a carne abatida, pretendemos vender os cordeiros vivos para grandes frigoríficos que já possuem certificação e conseguem distribuir para todo o Brasil. O objetivo é aumentar o rebanho e fechar contratos para entregar 100, 200 ou até mais borregos por mês, conforme a produção crescer”, afirmou.

Programa Cordeiro

Idealizado pela Cooperfal há cerca de seis meses, o Programa Cordeiro tem como objetivo oferecer assistência técnica, facilitar o escoamento da produção, disponibilizar acompanhamento veterinário e zootécnico, além de apoiar a estruturação das propriedades e integrar cooperados para a produção de cordeiros com padrão de qualidade.

De acordo com o presidente da Cooperfal, Berivaldo Marinho, todos os custos da iniciativa são arcados pela cooperativa e pelos próprios associados, ainda sem a participação de parceiros.

“É necessário elevar o padrão de qualidade, investindo em genética, manejo e nutrição em todas as etapas da produção. Esse é o caminho para fortalecer a atividade e fazer com que ela cresça de forma sustentável”, afirmou.

Sobre a trajetória de Gilson, Berivaldo destacou que o produtor precisou recomeçar do zero, buscar capacitação e entender as melhores técnicas para desenvolver a atividade.

Segundo ele, a ovinocultura ainda é pouco estruturada na Zona da Mata alagoana, e a propriedade de Gilson se tornou uma referência na região.

“Na nossa região, é a melhor referência que existe. Esse é o primeiro passo. Agora queremos incentivar outros produtores a investir e comercializar nessa atividade. Já temos criadores de ovinos, mas ainda não nesse nível de qualidade. O diferencial está justamente na genética, na nutrição, no manejo e na forma de produzir. Tudo isso precisa estar alinhado para que, no final, a gente tenha um cordeiro de qualidade”, concluiu.

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