A história do maior quilombo das Américas passa a percorrer novos caminhos a partir de Alagoas. Lançado na última sexta-feira (26), o Encontro com Palmares inicia uma circulação nacional que levará cultura, oralidade, gastronomia, tecnologia e saberes ancestrais a comunidades tradicionais de cinco estados brasileiros.

O pontapé inicial ocorreu no Restaurante Baobá, em União dos Palmares, município que abriga a Serra da Barriga, sítio histórico reconhecido como um dos principais símbolos da resistência negra no país. Todos os anos, durante as celebrações do Dia da Consciência Negra, o local recebe milhares de visitantes de diferentes regiões do Brasil.

A programação reuniu manifestações culturais, experiências imersivas e atividades voltadas à valorização da ancestralidade, traduzindo a proposta de aproximar tradição e inovação.

Sob a coordenação-geral da ialorixá, chef premiada e Patrimônio Vivo de Alagoas, Mãe Neide Oyá D’Oxum, o projeto foi apresentado como um movimento de reencontro entre quilombos brasileiros.

Realizada pelo Centro de Formação e Inclusão Social INAÊ, com patrocínio da Petrobras, por meio da Seleção Pública Petrobras Cultural e da Lei Rouanet, a caravana também percorrerá, até março de 2027, territórios quilombolas do ParáMaranhãoMinas GeraisSão Paulo e Rio Grande do Sul.

Palmares como ponto de reencontro dos quilombos

Mais do que apresentar uma programação cultural, Mãe Neide fez do lançamento um momento de reflexão sobre memória, pertencimento e educação antirracista. Ao explicar como nasceu a iniciativa, ela voltou à própria trajetória como mulher negra, mãe, ativista e liderança religiosa.

Segundo a ialorixá, a dificuldade de acesso à própria história foi um dos fatores que impulsionaram a criação do projeto.

“Nossa história sempre foi contada pelo olhar do branco. Também existe a dificuldade de fazer com que as Leis 10.639 e 11.645 sejam realmente aplicadas nas escolas. A gente sabe o quanto enfrenta resistência para falar da nossa história”, afirmou.

A sacerdotisa de matriz africana contou ainda que, após mais de quatro décadas subindo a Serra da Barriga, percebeu que era preciso criar conexões permanentes entre os quilombos brasileiros.

“Quando eu vi a oportunidade, depois de mais de 40 anos subindo a Serra da Barriga, percebi que precisávamos reunir o nosso povo. Não é trazer todo mundo para morar aqui, mas criar conexões por meio da oralidade, dos estudos, dos aromas e do pertencimento”, disse.

A líder religiosa revelou que a preocupação também surgiu da vontade de garantir continuidade ao trabalho desenvolvido ao longo da vida.

“Pensei: estou ficando velha. E quando eu partir? Como isso vai continuar? Foi aí que nasceu essa vontade de fortalecer primeiro os pais e mães dos quilombos e despertar novamente esse sentimento de pertencimento”, relata. 

Para a coordenadora-geral do projeto, o interesse demonstrado pelos jovens e pela imprensa durante o lançamento representa um sinal de que a proposta encontrou terreno fértil. “A semente brotou e eu sei que essa árvore vai dar muitos frutos.”

Saberes ancestrais ganham voz, palco e tecnologia

A gastronomia será uma das principais ferramentas da circulação nacional. Antes da abertura oficial, Mãe Neide apresentou uma aula-show com degustação da Favada, prato ancestral que também será levado à primeira parada da caravana, no Quilombo Cachoeira Porteira, em Oriximiná (PA).

Enquanto preparava a receita inspirada na culinária afro-indígena, a ialorixá contou histórias sobre Palmares e destacou a alimentação tradicional como patrimônio cultural. Segundo ela, a proposta não é levar receitas prontas, mas construir cada oficina ao lado das comunidades visitadas, respeitando os ingredientes e os saberes preservados em cada território.

“Levamos Palmares até eles. Quando levamos um prato aos quilombos, ele não vai pronto daqui. Trabalhamos os ingredientes de Palmares junto com os ingredientes produzidos por cada comunidade. Isso desperta algo que talvez estivesse adormecido.”, explica. 

Ao longo da programação, oficinas de dança ancestral, ervas medicinais e percussão ocorreram simultaneamente. Na sequência, o público participou de experiências em Realidade Virtual (VR) 360º e assistiu ao espetáculo inédito “Em Busca de Palmares, encerrando o dia ao som do tradicional Samba de Caboclo.

Escrita por Alexandre Gomes, a peça narra a trajetória de Bento e Quitéria, um casal de pessoas escravizadas que foge da senzala em busca do Quilombo dos Palmares. Interpretado por Carlos Rodrigues, Igor Vasconcelos e Leide Serafim, com participação do percussionista Carlos Popó, o espetáculo reúne teatro, música e tradição oral para retratar a busca pela liberdade.

A partir de agora, a caravana permanecerá entre três e sete dias em cada território visitado. Toda a circulação será registrada em uma websérie documental e em minidocumentários a serem disponibilizados gratuitamente nas plataformas digitais.

A gestora do projeto, Simone Benchimol, explica que o objetivo é permitir que os próprios quilombolas contem suas histórias, apresentando seus saberes, modos de vida e tradições sob a perspectiva de quem vive esses territórios.

“É um documentário muito afetivo, pensado na dimensão humana dessas comunidades. Queremos mostrar os encontros de saberes e fazeres, mas dando voz aos próprios quilombolas. Não é a nossa visão sobre eles; são eles apresentando seus territórios”, pontua. 

Os primeiros episódios serão lançados ainda este ano, acompanhando a passagem da caravana pelos estados. O último documentário da primeira etapa tem lançamento previsto para 25 de maio de 2027, Dia da África, encerrando o ciclo iniciado em Alagoas.

Segundo Benchimol, o próximo passo é expandir a iniciativa para todo o país. “A ideia é chegar aos 27 estados brasileiros”, afirma.

*O jornalista viajou a União dos Palmares (AL) a convite da assessoria de imprensa do projeto 

Foto de capa: Matheus Monstro 
Fonte : Cada Minuto

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