O que deveria ser um período de preparação política tem se transformado, em muitas regiões do Brasil, em um espetáculo de dissimulação. A chamada “pré-campanha” vem sendo usada como território cinzento, onde a criatividade não serve para apresentar ideias, mas para contornar a legislação eleitoral de forma escancarada.

De repente, multiplicam-se “pagodes comunitários”, “encontros culturais”, “reuniões de amigos” e “debates informais”. No papel, eventos sociais; na prática, palanques improvisados. Discursos ensaiados, presenças convocadas e um objetivo único: promover nomes, consolidar apoios e antecipar uma campanha que, oficialmente, ainda não começou.

Segundo análise do jornalista Antonio Fernando da Silva (Fernando CPI), em artigo publicado no site CPINEWS, o eleitor já percebeu o jogo. Sabe que o microfone aberto não é espontâneo, que os aplausos são organizados e que as falas têm endereço certo: o voto. Para ele, o problema vai além da esperteza política — trata-se de uma corrosão silenciosa das regras democráticas.

A legislação eleitoral existe para garantir equilíbrio, igualdade de condições e transparência. Quando pré-candidatos usam subterfúgios para fazer campanha antecipada, desequilibram o processo e favorecem quem tem mais estrutura, dinheiro e capacidade de mobilização disfarçada.

Esse cenário cria uma eleição que começa antes da hora, sem fiscalização adequada e sem limites claros. Há também um componente ético: se um pré-candidato inicia sua trajetória burlando regras, que compromisso terá com a legalidade ao assumir um cargo público?

Muitos desses eventos são vendidos como iniciativas comunitárias, mas funcionam como plataformas eleitorais disfarçadas. A comunidade vira figurante de um espetáculo político cujo roteiro já está definido. Enquanto isso, os órgãos de fiscalização enfrentam dificuldades para caracterizar formalmente a irregularidade, já que os discursos não pedem voto diretamente, apenas “se apresentam” e “dialogam”.

O resultado, como alerta Fernando CPI, é um ambiente político contaminado por práticas oportunistas, onde a criatividade é usada não para enriquecer o debate público, mas para driblar regras. Isso empobrece a democracia, distorce a disputa e enfraquece a confiança do eleitor.

No fim das contas, o recado é claro: não se trata apenas de esperteza política, mas de desrespeito — à lei, ao processo eleitoral e, principalmente, ao eleitor, que merece transparência, honestidade e um jogo limpo.

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