“A população que tem carro só a gasolina vai ter muitos problemas: desgaste em peça, desgaste no motor. O carro foi feito para gasolina, vai queimar álcool e o consumo vai se tornar muito alto.” A análise direta de Manoel Chaves dos Santos, mecânico com 40 anos de experiência em Alagoas, aponta para o calcanhar de Aquiles da nova política de combustíveis do país.

A decisão do Governo Federal de autorizar o aumento do teor de etanol anidro na gasolina para até 30% (com uma margem de segurança que permite chegar a 32%) acendeu o sinal vermelho nas oficinas mecânicas locais, em um momento em que os motoristas tentam entender o real impacto da medida no dia a dia.

A autorização foi chancelada recentemente pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e publicada oficialmente nesta terça-feira (14). Pelo decreto, a nova mistura obrigatória entra em vigor de forma imediata a partir da publicação, tendo validade temporária estipulada para os próximos 180 dias.

A medida é uma manobra de emergência do governo para tentar frear a alta dos combustíveis nas bombas, impulsionada pela disparada internacional do barril de petróleo.

Contudo, a pressa em aprovar a mudança gerou polêmica, onde os testes do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) que embasaram a decisão avaliaram apenas emissões e partidas a frio, deixando de fora os testes de durabilidade a longo prazo nos motores.

Logística pronta nos postos, mas redução de preço é incerta

Do ponto de vista comercial e de distribuição, o setor varejista de combustíveis em Alagoas garante estar preparado para a transição.

Segundo James Thorp Neto, presidente do Sindicombustíveis-AL, os postos de combustíveis não precisarão alterar sua rotina física ou estrutural para receber a nova mistura, restando apenas aguardar o repasse das distribuidoras.

“Estamos aguardando a publicação da Resolução do CNPE no Diário Oficial para que as distribuidoras possam iniciar a comercialização da gasolina com a nova mistura, uma vez que a responsabilidade pela entrega do produto com a mistura de etanol vigente é delas. Para a rotina dos postos em si, não há mudanças. Os postos estão aptos para o recebimento do produto novo”, explica Thorp.

Questionado sobre uma possível redução no preço final da gasolina, já que o etanol é historicamente mais barato que a gasolina pura, o presidente do sindicato ressalta que o comportamento das bombas dependerá do repasse da cadeia de distribuição e das oscilações de mercado.

“O Sindicombustíveis-AL não interfere em questões relacionadas a preço. Os valores comercializados vão depender dos repasses que serão realizados pelas distribuidoras com os novos custos que possam advir dessa alteração no percentual de etanol, sendo os revendedores livres para praticarem as eventuais reduções que possam ocorrer”, pondera, lembrando ainda que “o etanol é uma commodity e sofre oscilações diariamente em seu preço”.

O alerta das oficinas: “Vai ter muita dor de cabeça”

Se no varejo o clima é de compasso de espera, nas oficinas o tom é de preocupação real com a saúde dos veículos. 

Para o mecânico Manoel Chaves dos Santos, o aumento do percentual de álcool na mistura vai trazer problemas crônicos de funcionamento para boa parte da frota, principalmente em partidas frias.

“Com essa mudança, muitos carros vão sofrer. Não vão querer pegar de manhã, vai ficar aquela confusão porque vai ter muito álcool na gasolina. Isso vai acelerar o desgaste de peças sensíveis como os bicos injetores e o corpo de borboleta (TBI)”, alerta o profissional.

Manoel destaca que o impacto será ainda mais severo para os proprietários de veículos movidos exclusivamente a gasolina, uma frota que, embora menor hoje em dia, ainda soma cerca de 4,7 milhões de carros em circulação no Brasil.

“Mesmo tentando fazer adaptações, o resultado ainda não vai ser o ideal”, aponta o mecânico, que finaliza com um conselho realista para os motoristas alagoanos: “O conselho é se acostumar com o que está acontecendo, porque coisa boa não é. Vai ter muita dor de cabeça”.

A frota vulnerável e o risco de carbonização

A grande polêmica por trás da canetada do governo federal reside nos critérios técnicos adotados. 

Sem testes de durabilidade a longo prazo, os carros movidos puramente a gasolina e os modelos importados (desenvolvidos para rodar com gasolinas estrangeiras que possuem no máximo 10% de etanol) ficam expostos à carbonização, segundo Manoel, o acúmulo de uma crosta escura de resíduos que danifica bicos injetores e velas, gerando manutenções corretivas pesadas.

Além disso, o bolso do consumidor pode sofrer de outra forma. Como o etanol gera menos energia que a gasolina pura ao ser queimado (menor poder calorífico), a nova mistura fará o veículo consumir mais combustível para rodar a mesma distância.

Linha do tempo: a quase centenária relação do Brasil com o etanol na gasolina

A mistura de biocombustível na gasolina nacional não é uma novidade recente. Ela faz parte de uma estratégia de quase um século para proteger a economia interna e reduzir dependências externas:

– 1931 | O início de tudo (Era Vargas): O governo de Getúlio Vargas determina a mistura obrigatória de 5% de álcool na gasolina importada para proteger e escoar a produção da indústria nacional da cana-de-açúcar.

– 1975 | O avanço com o Proálcool: Em meio à crise mundial do petróleo, o governo federal lança o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) para expandir as destilarias e incentivar a substituição da gasolina.

– 1979 | O pioneiro das ruas: Nasce o Fiat 147, o primeiro carro do mundo produzido em série a rodar com 100% de etanol.

– 2003 – Presente | A era Flex e as novas misturas: A chegada dos motores bicombustíveis revoluciona o mercado. A mistura de etanol anidro na gasolina, que flutuava entre 20% e 25%, avança nos anos seguintes para 27%, depois 30% e, agora, chega ao limite temporário de 32%.

Gasolina Premium como refúgio e o papel da fiscalização

Uma das alternativas viáveis para proprietários de veículos importados ou antigos com motores altamente sensíveis é abastecer com gasolina do tipo Premium (como a Podium ou Octapro). 

Por lei, essa categoria mantém o teor de etanol limitado a 25%. Porém, em Alagoas, essa saída esbarra na escassez e no preço elevado.

Segundo James Thorp Neto, a busca por esse produto premium ainda é incerta no estado. 

“São poucos os postos que comercializam gasolina premium atualmente em Alagoas. O volume de venda deste produto também é bem reduzido, não sendo possível apontar ainda se haverá um crescimento ou não pela procura. Entretanto, os postos que já comercializam esse produto estão preparados para uma possível demanda”, esclarece.

Com a mistura batendo na casa dos 32% (incluindo a margem de tolerância), o temor de que os postos extrapolem o limite legal e vendam combustível adulterado foi rebatido pelo presidente do Sindicombustíveis-AL, que elogiou o papel das entidades fiscalizadoras locais.

“Felizmente, os dados oficiais mostram que o índice de não conformidade dos combustíveis, atualmente, em Alagoas, é bem reduzido. Embora o Sindicombustíveis-AL não possua papel fiscalizatório, existem vários órgãos que já desempenham esse papel, como a ANP, SEFAZ e o PROCON. Isso é muito positivo, pois quanto mais conforme estiver o combustível, mais leal e justo será o mercado para os empresários que cumprem a legislação, os quais são os nossos representados”, conclui Thorp.

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