Em Alagoas, cerca de 65 municípios estão sujeitos à desertificação, abrangendo uma área de aproximadamente 20 mil quilômetros quadrados, o que representa cerca de 32% a 60% do território do estado.

O problema atinge quase a metade da população do Estado e se concentra no Sertão alagoano, onde todos os municípios apresentam algum nível de degradação severa. As informações são do ecologista Ricardo Ramalho, um dos maiores estudiosos do assunto no Brasil.

Segundo ele, o avanço da desertificação e da degradação da Caatinga nos municípios do Sertão ocorre devido à seca severa e à ação humana, como o desmatamento acelerado e uso inadequado do solo.

“A desertificação é um processo climático, acelerado por práticas humanas danosas ao meio ambiente saudável e produtivo, que ocorre em zonas áridas, semiáridas e de baixa umidade”, afirmou Ramalho, que é engenheiro agrônomo e participa esta semana de um evento sobre desertificação, em Delmiro Gouveia e Olho d’Água do Casado.

Degradação

“As terras secas são degradadas ao longo dos anos e se transformam em desertos. De forma silenciosa destrói a capacidade do solo sustentar as diversas formas de vida dos ecossistemas, transformando áreas outrora produtivas em espaços naturais sem vida. Assim, compromete a produção agropecuária e a renda das famílias que vivem nessas regiões ameaçadas pelo fenômeno. A qualidade ambiental é, portanto, agravada drasticamente e a sonhada agricultura equilibrada, em harmonia com a natureza, desaparece”, explicou Ramalho.

Em artigo sobre o assunto, encaminhado à reportagem da Tribunal Independente na sexta-feira (12), ele escreveu que “a desertificação é resultado de um conjunto de fatores dos modelos de agricultura dominante, que desconsidera princípios fundamentais de ecologia e visam lucro ao preço da degradação ambiental. Aspectos socioeconômicos e políticos, assim como pressões dos mercados globalizados quanto à produção de alimentos, aliados à variabilidade climática e às instabilidades das chuvas, são elementos comprometedores desse desequilíbrio”.

Nesse artigo, o ecologista destaca que a desertificação compromete a produção de alimentos e reduz a renda dos sertanejos, comprometendo a qualidade de vida na região. “Seus efeitos acontecem mais fortemente na região do bioma Caatinga e, em alguns municípios, alcança níveis muito graves, como por exemplo Ouro Branco, Maravilha, Inhapi, Senador Rui Palmeira, Carneiros, Pariconha, Água Branca e Delmiro Gouveia”, relatou.

De acordo com Ricardo Ramalho, as áreas afetadas pela desertificação vêm crescendo em Alagoas, principalmente devido às ações deletérias do homem, como o desmatamento acelerado e o uso desordenado e inadequado do solo.

“O desmatamento que reduziu a menos de 10% da cobertura original da nossa Caatinga é o principal motivo. Terras sem matas e plantadas sem os cuidados de conservação do solo e da água enfraquecem a fertilidade e diminuem drasticamente a biodiversidade, corroída pela erosão. Mesmo a irrigação, que poderia amenizar a situação, quando mal-empregada provoca a salinização e acidificação das terras, tornando-as imprestáveis para as lavouras”, explicou Ramalho.

Ele disse que nos últimos tempos, o uso indiscriminado de fertilizantes, a aplicação aérea de agrotóxicos, principalmente os herbicidas pulverizados por drones, tem contribuído para aumentar o desmatamento e a consequente desertificação.

Evento debate problema em comunidades de Delmiro e Olho d’Água do Casado

Na opinião do ecologista Ricardo Ramalho, é preciso que o combate à desertificação se transforme numa política pública perene, para evitar que o Sertão vire deserto. Para debater a questão, Ramalho participa, esta semana, da Jornada de Combate à Desertificação, em comunidades rurais de Delmiro Gouveia e Olho d’Água do Casado, no Sertão alagoano. O debate será realizado, nos dois municípios, de 19 a 21 de junho.

A jornada faz parte dos debates em torno do Dia Mundial de Combate à Desertificação – cuja data, 17 de junho, foi escolhida pela ONU para ser dedicada ao problema que afeta diretamente cerca de 169 países, de acordo com a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).

Um fenômeno associado à crise climática que coloca em risco um terço de toda a superfície terrestre do planeta e ameaça à segurança alimentar e a sobrevivência de bilhões de pessoas.

Globalmente, o problema atinge áreas expressivas em todos os continentes, mas concentra-se fortemente em regiões da África (como a região do Sahel), na Ásia (incluindo China e Índia), na América Latina e no sul da Europa.

Para Ricardo Ramalho, Alagoas precisa reconhecer o problema e se integrar a esse esforço universal, não apenas identificando as causas, mas sobretudo executando políticas públicas, em conjunto com a sociedade civil, que enfrentem esse ecocídio, com estratégias de resiliência baseadas na Agroecologia.

“Além de estratégias que considerem o conhecimento acadêmico e os saberes populares ancestrais das comunidades rurais ameaçadas, e encontrem caminhos que restaurem nossos Sertões pelo recaatingamento e sistemas agroflorestais, modelos consagrados de convivência harmoniosa com a natureza”.

O ecologista alerta ainda para agravantes climáticos emergenciais como os previsíveis transtornos que deverão ocorrer nos próximos meses com a diminuição das chuvas do inverno deste ano, provocada pelo El Niño.

Segundo Ramalho, no evento em Delmiro Gouveia e Olho D’Água do Casado, será debatido o Programa Estadual de Combate à Desertificação (PAE). O objetivo do PAE/AL é implementar políticas públicas integradas de combate à desertificação e mitigação dos efeitos da seca, articuladas com estratégias de adaptação à crise climática e de restauração da biodiversidade.

A missão do PAE/AL é promover a resiliência socioambiental de Alagoas, fundamentada na gestão sustentável dos recursos naturais e na valorização da sociobiodiversidade, visando a Neutralidade da Degradação da Terra (NDT) e assegurando a soberania hídrica, alimentar e econômica, por meio da inovação técnica e da participação ativa das comunidades vulneráveis nas zonas de transição ecológica do estado.

Causas envolvem ação do homem e fatores naturais

O fenômeno desertificação atinge principalmente o semiárido brasileiro, incluindo estados do Mordeste. No entanto, estudos recentes indicam que as áreas sujeitas à desertificação se expandiram cerca de 30% nas últimas três décadas.

Causas Principais

A desertificação é o resultado da combinação de fatores naturais e, principalmente, da ação humana:

  1. Desmatamento e Queimadas: A retirada da cobertura vegetal original (como a vegetação nativa da Caatinga e do Cerrado) remove a proteção do solo.
  2. Manejo Inadequado: O sobrepastoreio, práticas agrícolas predatórias e a exaustão dos recursos hídricos degradam a terra.
  3. Mudanças Climáticas: O aumento das temperaturas médias e a diminuição ou irregularidade das chuvas intensificam os períodos de seca, acelerando a aridez. Para compreender a dinâmica técnica por trás dos estudos que mapeiam e alertam para o avanço da aridez no Nordeste.

Consequências

As consequências do avanço desse processo são tanto ambientais quanto socioeconômicas:

  • Perda de Biodiversidade: Redução drástica da fauna e flora locais.
  • Empobrecimento do Solo: A terra perde sua capacidade de reter água e nutrientes, tornando-se infértil e imprópria para o cultivo.
  • Impacto Socioeconômico: Queda na produtividade agrícola, ameaça à segurança alimentar e aumento do êxodo rural.

O fenômeno não é uma seca passageira. Trata-se de uma mudança duradoura no clima, com impactos diretos no acesso à água, na produção de alimentos e até na geração de energia.

Mais de 60% da eletricidade brasileira vem de usinas hidrelétricas, que dependem de reservatórios. Sem chuva, o risco de escassez aumenta.

No campo, a combinação de calor extremo e falta de água ameaça lavouras e a criação de animais, pressionando a oferta e elevando preços.

Por isso, para especialistas, a hora de agir é agora.

Medidas para reduzir emissões de gases de efeito estufa, restaurar áreas degradadas e proteger os recursos hídricos são consideradas urgentes para frear o avanço da aridez no país.

No Brasil, a desertificação já atinge cerca de 13% do território e coloca em risco a segurança hídrica e alimentar de mais de 30 milhões de pessoas, especialmente na caatinga, bioma semiárido.

O Relatório da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação aponta que o mundo perde 24 bilhões de toneladas de solo fértil todos os anos. No Brasil, a caatinga é especialmente vulnerável aos impactos das mudanças climáticas pelo seu clima naturalmente seco e de regeneração mais lenta.

O manejo sustentável da terra e a regeneração de áreas degradadas aparecem como as principais estratégias para prevenir o avanço da desertificação.

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