José Pedro de Freitas ficou conhecido por afirmar incorporar o espírito do médico alemão Dr. Fritz; sua trajetória entre fé, controvérsia, Justiça e popularidade atravessou duas décadas e chegou ao cinema
Durante aproximadamente duas décadas, uma pequena cidade histórica de Minas Gerais tornou-se destino de pessoas vindas de várias partes do Brasil e até do exterior em busca de um homem sem formação médica que dizia realizar tratamentos sob a influência de um espírito. Seu nome era José Pedro de Freitas, mas o Brasil o conheceria como Zé Arigó.
Nascido na zona rural de Congonhas (MG), Arigó ganhou projeção nacional principalmente a partir da década de 1950. Segundo os relatos que cercam sua trajetória, ele afirmava incorporar Dr. Fritz, apresentado como o espírito de um médico alemão que teria morrido durante a Primeira Guerra Mundial. Não há, porém, comprovação histórica independente da existência desse médico com a identidade descrita nas narrativas mediúnicas.
Cirurgias sem anestesia chamavam a atenção
Arigó tornou-se famoso por procedimentos que seus seguidores classificavam como cirurgias espirituais. Relatos da época descrevem o uso de instrumentos simples, como facas e canivetes, além da ausência dos procedimentos convencionais de anestesia e assepsia.
É importante fazer uma distinção histórica: embora milhares de pessoas tenham atribuído curas a Arigó e esses relatos tenham contribuído decisivamente para sua fama, as alegações de cura paranormal e de incorporação do Dr. Fritz não são fatos cientificamente estabelecidos.
O fenômeno, entretanto, foi suficientemente grande para transformar a rotina de Congonhas. A Câmara Municipal registra que Arigó chegou a atender gratuitamente até cerca de 200 pessoas por dia, recebendo visitantes de diferentes estados brasileiros e também de países da América do Sul, Europa e Estados Unidos.
Sua atuação também despertou interesse de pesquisadores e médicos estrangeiros. Na década de 1960, equipes foram a Congonhas observar seus procedimentos, contribuindo para que o caso ganhasse repercussão fora do Brasil.
Da popularidade à prisão
O trabalho de Arigó inevitavelmente entrou em conflito com a legislação brasileira.
Em 1956, ele foi processado sob acusação de curandeirismo. Acabou condenado a 15 meses de prisão, posteriormente teve a pena reduzida e recebeu indulto do então presidente Juscelino Kubitschek.
Anos depois, enfrentou novo processo. Em 1962, foi preso por exercício ilegal da medicina e permaneceu aproximadamente sete meses em Conselheiro Lafaiete. Segundo registros históricos locais, sua popularidade não diminuiu com a prisão; ao contrário, ele retornou a Congonhas ainda mais conhecido.
O episódio revela uma das principais características de sua história: enquanto enfrentava resistência de setores médicos, religiosos e jurídicos, Arigó mantinha enorme apoio entre aqueles que acreditavam em seus tratamentos.
Uma morte repentina
A trajetória foi interrompida tragicamente em 11 de janeiro de 1971. Zé Arigó morreu vítima de um acidente automobilístico na BR-040.
Sua morte não encerrou, porém, as discussões em torno do personagem. Décadas depois, Arigó continua sendo lembrado como uma das figuras mais controversas da história da mediunidade e das chamadas curas espirituais no Brasil.
Sua importância para a memória de Congonhas é tamanha que José Pedro de Freitas foi incluído no Inventário de Proteção do Acervo Cultural do município, na categoria de patrimônio imaterial ligada às personalidades locais.
História chegou às telas de cinema
Mais de meio século depois de sua morte, a trajetória ganhou uma produção cinematográfica de grande alcance.
Em 2022, chegou aos cinemas “Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz”, dirigido por Gustavo Fernandez. O ator Danton Mello interpreta Zé Arigó, enquanto Juliana Paes vive Arlete, sua esposa. O elenco também reúne nomes como Marcos Caruso, Alexandre Borges, Marco Ricca e Cássio Gabus Mendes.
O filme recuperou para novas gerações a história do homem simples de Congonhas que se transformou em um personagem conhecido internacionalmente.
Entre testemunhos de pessoas que afirmavam ter sido beneficiadas, questionamentos científicos, conflitos com a medicina, processos judiciais e uma extraordinária mobilização popular, Zé Arigó permanece como um dos personagens mais enigmáticos e debatidos do Brasil do século XX.
Sua história ocupa justamente essa fronteira entre fé, fenômeno social, medicina e ciência: para seus seguidores, foi um médium com extraordinário poder de cura; para os céticos, suas alegações paranormais nunca foram comprovadas cientificamente. O que não está em discussão é a dimensão histórica do fenômeno — durante anos, milhares de pessoas viajaram até Congonhas em busca daquele homem que o país aprendeu a chamar simplesmente de Zé Arigó.






