Muito antes de Arapiraca se consolidar como um dos maiores polos econômicos do interior do Nordeste, foi a sua feira livre que lançou as bases para esse desenvolvimento. Mais do que um espaço de comércio, a tradicional Feira de Arapiraca tornou-se um símbolo da identidade cultural, econômica e social do município, desempenhando papel decisivo na emancipação política da cidade e na formação de sua história.
O nascimento de uma tradição
A origem da feira remonta ao ano de 1884, quando Arapiraca ainda era um pequeno povoado. Inicialmente formada por poucos comerciantes e agricultores da região, ela rapidamente passou a atrair produtores rurais, tropeiros, artesãos e compradores de diversas localidades do Agreste e do Sertão alagoano.
À medida que crescia, a feira impulsionava também o desenvolvimento urbano do povoado. Seu movimento intenso fortaleceu a economia local e contribuiu diretamente para que Arapiraca deixasse a condição de povoação e alcançasse o status de vila.
A feira que ajudou a emancipar Arapiraca
Com a expansão da cultura fumageira nas primeiras décadas do século XX, a feira ganhou dimensões extraordinárias.
Já por volta de 1920, a arrecadação econômica da então Vila de Arapiraca superava a da sede municipal, Limoeiro de Anadia, fato que fortaleceu o movimento emancipacionista.
Quatro anos depois, em 1924, Arapiraca conquistava sua autonomia política, tendo a feira como um dos principais motores desse processo histórico.
O maior centro comercial do Agreste
Durante décadas, especialmente entre as décadas de 1960 e 2000, a Feira Livre de Arapiraca foi considerada uma das maiores e mais importantes do Nordeste.
Nas segundas-feiras, milhares de pessoas ocupavam praticamente todo o centro da cidade.
Estimava-se que mais de 30 mil pessoas circulassem semanalmente entre ruas e praças, transformando Arapiraca em um verdadeiro centro regional de negócios.
Ali era possível encontrar praticamente tudo:
- frutas e verduras;
- carnes e pescados;
- cereais;
- animais;
- móveis;
- roupas;
- panelas;
- utensílios domésticos;
- ferramentas;
- implementos agrícolas;
- artesanato;
- plantas medicinais.
A importância da feira foi tão grande que várias ruas passaram a ser identificadas pelo tipo de comércio que abrigavam, surgindo denominações populares como:
- Rua da Feira do Peixe;
- Rua do Carvão;
- Rua dos Móveis;
- Rua das Frutas;
- Rua do Coco.
Esses nomes permanecem vivos na memória coletiva dos arapiraquenses.
Muito mais que comércio
A feira nunca foi apenas um mercado.
Ela era o grande ponto de encontro do povo nordestino.
Era o lugar onde famílias inteiras aproveitavam o dia para resolver suas necessidades, encontrar amigos e participar da vida da cidade.
Quem vinha da zona rural aproveitava a viagem para:
- fazer compras;
- ir ao banco;
- utilizar os serviços do cartório;
- enviar cartas pelo correio;
- assistir ao cinema;
- participar de celebrações religiosas;
- resolver assuntos administrativos.
A feira também era palco permanente da cultura popular.
Ali conviviam:
- emboladores de coco;
- violeiros;
- repentistas;
- cordelistas;
- sanfoneiros;
- cartomantes;
- rezadores;
- mezinheiros;
- curadores populares;
- tocadores de realejo;
- vendedores de folhetos de cordel.
Era um verdadeiro espetáculo da cultura nordestina a céu aberto.
Uma cidade que despertava antes do amanhecer
O movimento começava ainda no domingo.
Os primeiros caminhões, carroças e animais de carga chegavam trazendo inhame, batata, frutas, cereais e outros produtos agrícolas.
Durante a madrugada, carregadores espalhavam milhares de bancas pelas ruas do centro.
Os comerciantes montavam suas lonas enquanto bares e botequins permaneciam abertos durante toda a noite, servindo café, pão, refeições e a tradicional cachaça, que muitos feirantes chamavam de remédio para “espertar a ideia”.
Ao nascer do sol, Arapiraca já estava completamente transformada.
Berço da cultura popular
A feira foi também uma das maiores expressões culturais do Agreste.
Diversos pesquisadores, artistas e estudiosos dedicaram-se a registrar sua riqueza humana e cultural.
O músico Hermeto Pascoal, natural de Lagoa da Canoa, sempre afirmou que muitos dos sons que inspiraram sua extraordinária criatividade nasceram justamente da convivência com a Feira de Arapiraca durante sua infância e juventude.
O ambiente reunia vozes, pregões, aboios, sanfonas, emboladas, cantorias e sons que se misturavam formando uma verdadeira sinfonia popular.
Os cinemas também faziam parte da tradição
Para muitos moradores da zona rural, o dia de feira terminava nas salas de cinema.
Os antigos Cine Trianon e Cine Triunfo realizavam sessões especiais, principalmente às segundas-feiras.
As matinês eram sempre lotadas.
O público assistia desde os filmes de Mazzaropi, passando pelos clássicos faroestes americanos, aventuras de Tarzan, Zorro, James Bond e, durante a Semana Santa, os tradicionais filmes sobre a Paixão de Cristo.
A ida ao cinema fazia parte do ritual de quem vinha à feira.
Mudanças e novos desafios
Com o crescimento urbano, a feira passou a enfrentar problemas relacionados à mobilidade, limpeza, organização e ocupação dos espaços públicos.
No início do século XXI, a Prefeitura promoveu um amplo processo de reorganização.
Em janeiro de 2004, a feira foi transferida para uma nova configuração urbana, buscando melhorar as condições de funcionamento e reduzir os impactos sobre o centro da cidade.
Embora essa mudança tenha solucionado diversos problemas estruturais, também alterou significativamente a dinâmica cultural que caracterizava a antiga feira.
Um patrimônio que merece ser preservado
Hoje, Arapiraca possui um comércio moderno, forte e diversificado, além de novas feiras distribuídas por diversos bairros.
Entretanto, a antiga feira livre permanece viva na memória afetiva da população.
Mais do que um centro comercial, ela representa um patrimônio histórico e cultural que ajudou a construir a identidade do município.
Especialistas defendem que experiências bem-sucedidas de cidades do Agreste pernambucano e paraibano podem inspirar projetos capazes de revitalizar a tradição da feira, fortalecendo sua vocação como espaço de comércio, turismo, cultura e convivência social.
Preservar a memória da Feira de Arapiraca é reconhecer o papel fundamental que ela desempenhou na formação econômica, social e cultural da cidade.





